PUC Rio
Departamento de Educação
Professor Elias Celso Galvêas
O que é ser brasileiro?
Há, certamente, muita distorção ideológica na imagem do Brasil que nos é oferecida: os símbolos da unidade nacional, comprometidos com o sentimentalismo patriótico (...), camuflam contradições essenciais, disfarçam igualdades sociais escandalosas.
(Konder Leandro Jornal do Brasil Sábado, 22 de Setembro de 2000.)
Como diria Oscar Wilde: O patriotismo é a virtude dos selvagens. E tentando, em vão, complementar com minhas próprias palavras: da pior espécie de selvagens! Que são aqueles que se acham civilizados.
Além disso, como a História parece já ter mostrado: os movimentos nacionalistas transformam-se facilmente em pretexto para que fascistas de determinada elite se apropriem do poder e, em lá se mantendo legitimamente, possam ilaquear a boa fé de todo um povo que, após uma lavagem cerebral, realizada - sempre com a melhor das intenções - através de bombardeios de ideologias fraudulentas, passam, cegamente, a apoiá-los. E o pior de tudo é que, se não se toma cuidado, a História acaba se repetindo, com ou sem os vernizes da democracia.
A História da Humanidade é repleta de sangue, suor e lágrimas de culpados e inocentes. Por se constituir em uma Ciência de caráter cíclico, podemos observar, em todo o seu decorrer, determinados padrões: a classe dominante de porcos fascistas (hoje, em nosso país, os verdadeiros cordeiros com verniz democrático) se organizando em torno de poderosas instituições, a fim de melhor administrar a exploração em massa de seus pobre súditos. E o patriotismo, assim como o nacionalismo, sempre foram utilizados para justificar as atrocidades das guerras que, geralmente, são travadas para solucionar as mais mesquinhas disputas: como o preço do barril de petróleo no mercado internacional, por exemplo.
Pão e Circo é de que o povo precisa, diziam os Imperadores Romanos, na época em que as atrocidades eram legitimadas, e, portanto, consideradas normais. Será que essa política mesquinha ainda vale para os dias de hoje? Caso positivo, isso é um claro sinal de que, ao menos espiritualmente, o homem não evoluiu muita coisa no decorrer dos últimos 2.500 anos que se passaram. O homem parece não ter evoluído muita coisa desde a última vinda do grande arquétipo do amor universal (por nós crucificado e eleito) ao nosso planeta de quinta categoria.
Tal qual os antigos romanos, os brasileiros parecem precisar apenas de futebol e de carnaval para não se revoltar contra tudo o que acontece. E, assim, nossos governantes não só aplaudem a política dos antigos imperadores de Roma, como também são reprodutores cruéis e perversos de suas estratégias mesquinhas de dominação hegemônica. Como nos fala o livro do sábio Eclesiastes: não há nada de novo abaixo do sol, ou melhor, parece ainda não haver.
Mas e se nos perguntam o que é ser brasileiro? Particularmente, teria que ser muito sincero: por tudo o que foi até agora argumentado, tenho que admitir que essa pergunta me atravessa o peito como uma faca afiada! Não sei como responder adequadamente a essa questão.
Ser brasileiro talvez seja vibrar ao ser tetra-campeão mundial de futebol; ser brasileiro é ter o nosso catarinense Guga como tri-campeão em Rolland-Garros; é guardar no coração memórias maravilhosas de um grande ídolo como Airton Senna; e, enfim, é prestar respeitosa reverência a um povo sofrido que todos os dias batalha bravamente, e, contra todas as adversidades possíveis e imagináveis, come o Pão que o diabo amassou , sempre seguindo em frente, com muita bravura, fé e humildade, na luta do dia-a-dia.
Mas, infelizmente, todas essas alegrias que deveriam assumir proporções épicas e memoráveis na reconstituição de nossa História, acabam por se tornar pequenas alegrias, migalhas atiradas ao povo, diante do panorama de descaso, roubalheira e corrupção por parte da maioria dos políticos que nos governam. De que adianta pequenos consolos se vivemos num país onde a miséria, a violência, a injustiça, a impunidade, enfim, o descaso e o desgoverno, parecem imperar, assumindo proporções incontroláveis? Enquanto isto, o povo se distrai com o pão, o circo e algumas migalhas que governantes bem intencionados insistem em lhes jogar.
Tais alegrias e consolos infelizmente tornam-se pequenos diante de tanta balbúrdia e caos e, certamente, não irão encher a barriga de nossos miseráveis; não irão promover a tão necessária reforma agrária; não irão ensinar, de forma mágica, nossos milhões de analfabetos a serem cidadãos críticos, participantes e ativos; e, tampouco, recuperarão a moral e a credibilidade de nossos políticos - mestres da demagogia e das falcatruas - já tão desacreditados e desmoralizados.
E por todos esses motivos e muitos outros -, rezo, todos os dias, para que o ser humano deixe de possuir essa visão excessivamente fragmentada de si mesmo como espécie. Afinal, como diria Charles Chaplin (um dos maiores humanistas do século passado): Não sois americanos, pretos, brancos, amarelos, muçulmanos ou judeus. Seres humanos é o que sois. Trecho do Ultimo Discurso.
Vibremos, portanto, de maneira uníssona para que redescubramos, não somente o Brasil, mas a humanidade tão enferrujada e pouco exercitada dentro de nós mesmos, homens pós-modernos. Vibremos uníssonos para que não nos sintamos bem apenas em ser brasileiros, mas que sejamos uma só unidade capaz de exercer o Bem através de nossa humanidade para a grandeza de nosso Criador.
Professor Elias Celso Galvêas
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