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PARTE I: A OBRA EDUCACIONAL DOS JESUÍTAS NO BRASIL COLÔNIA - A COMPANHIA DE JESUS
PROFESSOR ELIAS CELSO GALVÊAS
Em Portugal, assim como em toda a Europa, existia, desde a Idade Média, principalmente no século XVI, uma íntima relação entre o poder do Estado e o da Igreja. De fato, até meados do século XVII, o Poder do Estado e o Poder da Igreja eram exercidos concomitantemente, ou seja, o Estado dividia o poderio mundial - na época a Europa - com a Igreja Católica.
O Absolutismo, como um regime de governo, pressupunha a unidade da fé aliada à obediência cega ao Estado. O rei era o soberano absoluto e dividia o poder com a Igreja Católica representada pela figura do Papa. O Rei, por sua vez, era tido como um verdadeiro predes-tinado, um escolhido de Deus para exercer arbitrariamente seus plenos poderes, governando seus súditos e seu reino como bem entendesse sempre com todo o respaldo ideológico da Igreja Católica Apostólica Romana.
O equilíbrio de todo esse sistema político começou a ser abalado com a reforma protestante iniciada por Martinho Lutero, em 1517, cujas idéias se difundiram rapidamente pela Alemanha e, posteriormente, por toda a Europa. As idéias protestante viriam a enfraquecer o poder da Igreja, posto que provocaria mais uma cisão dentro de seu seio, não considerando mais o Papa como seu líder espiritual.
É interessante ressaltar que Inglaterra, desde a época de Henrique VIII (1491-1547), já havia oficialmente se convertido ao anglicanismo, separando-se, precocemente, do poderio da Igreja. Esta cisão provocou, desde cedo, a separação entre o poder do Estado inglês e da Igreja Católica o que ocorreria em seguida, um século mais tarde, em outros países europeus, devido às reformas luteranas e a disseminação do protestantismo no mundo.
A reação da Igreja não se fez esperar: iniciou-se, portanto, o movimento da Contra Reforma, de forte caráter repressivo, dentro do qual se instalaram os tribunais da Santa Inquisição e da Congregação do Index.
Ainda dentro desse contexto de defesa dos interesses da Igreja, foi criada a Companhia de Jesus, fundada pelo militar Ignácio de Loyola, em 1534. Os jesuítas foram organizados como soldados de Cristo, com a incumbência de combater as idéias protestantes e atuar fora da Europa, nas colônias da Ásia, da África e das Américas, através de um extenso trabalho de catequese, sempre tentando incorporar novas almas à Igreja de Roma. O trabalho dos jesuítas destinava-se a facilitar a dominação das colônias pelas metrópo-les, mediante uma atuação evangelizadora e, ao mesmo tempo, não permitir que as idéias protestantes se proliferassem nas Colônias.
Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, com o governador Tomé de Souza, chefiados pelo padre José Manoel da Nóbrega que, juntamente com o padre José de Anchieta, dedicou-se à organização de um processo de aldeamento dos índios, que ficou conhecido como as "Missões". Esse processo foi muito importante no sentido de que deu início à colonização das extensas terras brasileiras que, naquela época, pertenciam à Portugal, mas se encontravam permanentemente ameaçadas de serem invadidas por países estrangeiros.
Nos primórdios da colonização do Brasil, a falta de mão de obra para os trabalhos urbanos ou nas lavouras obrigou os colonos a escravizarem os índios - que não se submeteram ao trabalho escravo, fugindo para o interior ou preferindo a morte. A atitude dos colonos, poetanto, contrariava os verdadeiros objetivos das Missões, posto que estavam alí, não para escravizar, mas para catequizar e conquistar pacificamente a simpatia da população indígena.
Nessa situação, a primeira tarefa dos jesuítas consistia na proteção dos índios, organizando a vida dos grupos em aldeamentos, onde promoviam a conversão dos gentios, alfabetização das crianças, o treinamento dos adultos para o trabalho e, até mesmo, a organização de grupos militares para a defesa dos aldeamentos.
Além dos índios, as escolas dos aldeamentos abrigavam, também, mestiços como os mamelucos e os filhos dos colonos. Foram essas as primeiras escolas do Brasil, bem como o início da identidade de nosso povo.
A partir da Capitania de São Vicente, hoje Estado de São Paulo, os padres Manoel da Nóbrega e Anchieta foram penetrando no interior e criando Missões. Este movimento é historicamente conhecido como Entradas e Bandeiras. Muitos aldeamentos foram criados no interior do Brasil, sustentando-se pela prática da pecuária e extração de minérios. Os Jesuítas contribuíram em muito para a educação - nos moldes católico - de toda esta nova população.
A primeira foi Piratininga, e a Segunda Maniçoba, atual Itú. O grande prestígio adquirido por Nóbrega e Anchieta junto aos índios foi de grande utilidade para Mem de Sá e seu sobrinho Estácio de Sá - que conseguiram expulsar os franceses que se apoderaram de parte Rio de Janeiro (região da atual cidade de búzios). Os franceses eram apoiados pelos índios Tamoios, que Nóbrega e Anchieta não conseguiram cativar. Procuraram, então, aliança com os Tupis e conseguiram derrotar os franceses em 1566.
Em 1577, já haviam 140 jesuítas no Brasil (atualmente são 809). Eles criaram várias aldeias no interior e no litoral, entre São Vicente e Bahia. Na capitania do Espírito Santo, Anchieta criou as aldeias de Guarapari, Reis Magos e Reritiba (atual Anchieta), onde morreu em 1597, com 64 anos.
A atuação dos jesuítas, num primeiro momento, garantiu a presença da Igreja no território Colonial, o que fortaleceu o poder da Igreja no Brasil Colônia sob vários aspectos, principalmente se levarmos em conta que, na época, mais do que a polícia, a Igreja passou a ser o instrumento hegemônico de controle social mesmo que numa sociedade que ainda não apresentava muita complexidade.
O cristão obedecia aos preceitos religiosos por temer a reprovação pública e a excomunhão. A Igreja organizava as festas populares, influía no comportamento coletivo e introduzia uma cultura inteiramente nova no Brasil Colônia, outrora pagão.
Os jesuítas, no Brasil, fizeram da educação um agente eficiente da colonização, dando os primeiros passos para a criação de uma unidade nacional. Foram eles os criadores dos primeiros colégios, em São Vicente, em Salvador e, depois, em Paranaguá, no litoral de São Paulo; e no Rio de Janeiro, em Ilhéus, Recife, Olinda e Belém do Pará.
Quanto à didática dos jesuítas, o ensino era dividido em duas séries: a inferior, com duração de seis anos, dedicada ao estudo da Retórica, Humanidades e Gramática; e a superior, com duração de três anos, que ensinava Lógica, Moral, Física, Matemática e Metafísica. As aulas eram ministradas em grego, latim e português, sem maiores preocupações técnicas ou de formação profissional.
A Companhia de Jesus (jesuítas) fundou-se com base no voto de pobreza, daí que deveria ser sustentada pelo Estado. Como isso acabou não ocorrendo, a Companhia de Jesus, para não se desintegrar, procurou desenvolver suas próprias fontes de recursos, tornando-se auto-sustentável através da administração de grandes propriedades, onde, ao lado da catequização e do ensino, utilizava-se da própria mão-de-obra indígena para a sua sustentação econômica. Os jesuítas não escravizavam os índios, mas, através da educação e da catequese, onde aprendiam o valor do trabalho, acabavam por fazer os índios colaborarem pacificamente.
Isto é suficiente para explicar as constantes desavenças entre as Missões e os colonos locais, pois estes almejavam implantar o trabalho escravo em nosso território, e viam na catequização dos índios pelos jesuítas um obstáculo em todos os sentidos. No Sul, as Missões foram arrasadas pelos paulistas que, inclusive, aprisionavam os índios, seus habitantes, para o trabalho escravo.
De qualquer forma, os jesuítas foram os primeiros educadores atuantes no Brasil. Três críticas, entretanto, lhes são feitas:
1. metodologicamente falando, utilizavam, na educação, o velho sistema metodológico e cultural escolástico, que, na Europa, há muito já se encontrava em processo de superação - e ao qual faltava visão prática e aplicabilidade;
2. ao aglomerarem os índios em aldeamentos, facilitavam a sua captura e escravização pelos colonos;
3. e, enfim, a própria imposição feita pelos jesuítas de uma religião diferente da que o índio conhecia, de uma nova língua e novos hábitos, acabaram por destruir toda a cultura original dos nativos. Não houve a troca e o enriquecimento mútuo, o que, em termos educativos, seria o ideal.
Na medida em que crescia a influência dos jesuítas na ordem social da colônia, bem como o seu poder econômico, os jesuítas foram ficando cada vez mais autônomos em relação ao Estado e à própria Igreja Católica.
Por esto motivo, a Coroa portuguesa passou a ver neles uma ameaça ao seu poderio. Os conflitos foram crescendo em intensidade, junto a uma feroz reação por parte dos colonos brasileiros. Os jesuítas encontravam-se, desta forma, política e ideologicamente isolados.
Assim, no ano de 1759, duzentos e dez anos após sua chegada, mais de 600 jesuítas foram expulsos do Brasil, pelo então secretário de estado português do rei D. José II: o Marquês de Pombal que repudiava os ideais democráticos então emergentes, tendo sido famoso por defender radicalmente a Política Absolutista dos Reis da época fato que, às véspera da Revolução Francesa, onde as idéias iluministas já floresciam há bastante tempo, representava um retrocesso em termo ideológicos por parte de Portugal.
A expulsão dos jesuítas do território colonial pelo Marquês de Pombal acabou por desestruturar por completo a ordem dos jesuítas no Brasil, gerando grandes prejuízos para os aldeamentos indígenas, para a educação e o ensino na colônia, até o momento nas mãos da Igreja.
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PARTE II: A EDUCAÇÃO JESUÍTICA NA COLÔNIA BRASILEIRA E A REFORMA POMBALINA
PROFESSOR ELIAS CELSO GALVÊAS
A vinda dos jesuítas para o Brasil: a reforma protestante, iniciada pelo padre Lutero, em 1517, abalou o poder e o prestígio da Igreja, até então detentora de enorme poder em todas as cortes européias. A partir da Reforma, deu-se, em vários países, a separação definitiva entre o estado e a Igreja, como foi o caso, primeiramente da Inglaterra, seguida pela Alemanha.
Ao lado do poder político, na Europa, a Igreja ocupava, também, a liderança do ensino e da educação que, basicamente, se realizava no âmbito dos mosteiros. A essência da educação religiosa tinha por base a escolástica, sistema de ensino cujos fundamentos se baseavam na Metafísica e na Teologia. São Thomás de Aquino, o verdadeiro disseminador dos métodos escolásticos, é o grande expoente que representa esta vertente que, na época, era predominante. A escolástica, por sua vez, possuía fortes influências dos ensinamentos do filósofo grego Aristóteles. Não obstante, era uma metodologia que, nesta época, encontrava-se em fase de superação, devido à gradativa perda do poder da Igreja, aliada ao avanço progressivo do pensamento científico.
Com a reforma protestante, a Igreja irá igualmente perder terreno na hegemonia do ensino, eis que a liberdade na divulgação das ciências e dos métodos científicos de pesquisa e conhecimento irão, com o passar do tempo, suplantar definitivamente os antigos métodos escolásticos de disseminação do conhecimento, peculiares ao ensino religioso.
A reação da Igreja contra as idéias de Lutero, e também de Calvino, se deu através de uma ampla contra-reforma, de caráter repressivo, que chegou até a instalação dos Tribunais de Inquisição, para reafirmar a doutrina católica por métodos terroristas, muito questionáveis e pouco ortodoxos.
Nessa época, com o objetivo de defender a Igreja, foi criada a Companhia de Jesus, em 1534, por um ex-militar chamado Ignácio de Loyola. Os Jesuítas foram organizados como soldados de Cristo, e sua missão principal seria impedir a propagação das idéias protestantes nas colônias portuguesas da Ásia, da África e das Américas.
Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, com o governador Tomé de Souza, chefiados pelo padre José Manoel da Nóbrega. Ao seu lado vinha o noviço José de Anchieta, que se destacou de tal maneira que foi beatificado e consagrado apóstolo do Brasil. Além do am-plo trabalho de catequese dos indígenas, os jesuítas estabeleceram, no Brasil, a primeira rede de ensino através dos recolhimentos e das missões, onde ensinavam aos pequenos índios e aos filhos dos colonos.
O ensino, como foi organizado pelos jesuítas, dividia-se em duas séries: a inferior, com duração de seis anos, dedicada ao estudo da Retórica, Humanidades e Gramática; e a superior, com duração de três anos, que ensinava Lógica, moral, Física, Matemática e Meta-física. Evidentemente, muito mais Metafísica do que Física ou Matemática. As aulas eram ministradas em grego, latim e português, sem maiores preocupações técnicas ou profissionais.
Os jesuítas foram, sem dúvida, os primeiro educadores do Brasil. Mas utilizavam na educação o velho sistema escolástico, que há muito já se encontrava superado na Europa.
Segundo os Regimentos, elaborados pelo padre Manoel da Nóbrega, o plano de estudos começava pelo aprendizado do português e incluía o ensino da doutrina cristã e os princípios básicos da leitura e da escrita. Daí em diante, vinha o ensino de canto orfeônico e de música instrumental, prosseguindo o estudo da gramática e com o aprendizado manufatureiro e agrícola. Os jesuítas não conseguiram maiores resultados com a educação dos indígenas, que acabaram sendo preparados para o trabalho material. Os adequadamente instruídos para os padrões da época seriam os descendentes dos coloniza-dores.
A Reforma Pombalina: quando o marquês de pombal (Sebastião de Carvalho e Mello), primeiro ministro português do rei D. José, assumiu o poder, Portugal estava empobrecido e muito atrasado em relação aos principais países da Europa.
Esse empobrecimento começou com a dominação espanhola (1580-1640), após a unificação das coroas dos dois países, em que os dois maiores inimigos da Espanha os ingleses e os holandeses - tornaram-se, também, inimigos de Portugal. Posteriormente, a Inglaterra passou a ter um grande domínio sobre Portugal, caracterizado pelo acordo firmado em 1703, pelo embaixador Methuen, da Inglaterra, segundo o qual Portugal abdicava de criar indústrias em seu território, para comprar exclusivamente produtos manufaturados ingleses. Em troca, Portugal se especializaria em produtos agrícolas, como o azeite e o vinho, que exportaria para Inglaterra.
Assim, economicamente, Portugal continuava, no século XVIII, uma economia feudal, atrasada, governado por um Rei absoluto e uma nobreza arruinada.
O Marquês de Pombal empreendeu um programa revolucionário de recuperação da economia portuguesa, tendo por base tirar o maior proveito possível das colônias portuguesas, especialmente do Brasil.
A necessidade de expandir as atividades produtivas na colônia exigia a mobilização de recursos humanos, inclusive para a administração e a fiscalização dos empreendimentos. Nesse sentido, o grau de educação dos administradores era um elemento importante, o que levou Pombal a destituir os cargos superiores aos portugueses nascidos na metrópole, deixando aso nascidos na colônia apenas cargos inferiores.
Em meados do século XVIII, a única Universidade de Portugal, a de Coimbra, continuava com todas as características medievais - caracterizada, principalmente, pela predominância da filosofia e metodologia escolástica. Dessa forma, a Metodologia Científica - iniciada por Galileu, kepler e outros -; ou a filosofia moderna de Descartes, brem como os novos métodos da ciência físico-matemática, constituíam, para aquela época, elementos progressitas do pensar que ainda pareciam ser desconhecidos em Portugal, o que atrasava o desenvolvimento científico e intelectual do país em relação aos demais.
O Marquês de pombal empreendeu um verdadeiro movimento iluminista, dando total apoio aos estudos e trabalhos que vinham se desenvolvendo na Academia Real de História e na Academia Real de Ciência. A partir daí, iniciou uma série de reformas, entre as quais se destacava a da instrução pública. Abria-se, assim, um campo novo para as disseminações das idéias de Locke, Hobbes, Rousseau, Spinoza, Voltaire e outros.
No âmbito dos empreendimentos coloniais, o programa do Marquês de Pombal chocava-se com os métodos de ensino da Companhia de Jesus, da qual se dizia que:
(a) era detentora de um poder e uma autonomia econômica que deveria ser devolvido ao Governo da metrópole; e
(b) educava os colonizadores cristãos a serviço da ordem religiosa da Igreja, não dando muito importância aos verdadeiros interesses da Côroa Portuguesa.
No contexto da Reforma Pombalina, tratou-se de simplificar e abreviar os estudos, fazendo com que um maior número de cidadão se interessasse pelos cursos superiores. Ao lado do estudo da língua portuguesa, procurou-se dar maior ênfase aos estudos de natureza científica e de tornar o ensino o mais prático e profissional possível.
O ensino público foi reorganizado, financiado pelo Estado e fora das fronteiras da Igreja. A formação de professores e a sua seleção foram objetos de programas especiais. Essa orientação foi, também, aplicada no Brasil, com vista ao rompimento da tradição representada pelos jesuítas. O choque foi inevitável. Em 1759, o Marquês de Pombal determinou a expulsão dos jesuítas do Brasil.
As Reformas Pombalinas visaram transformar Portugal numa metrópole capitalista, a exemplo da Inglaterra, da frança e da Alemanha, no bojo da Revolução Industrial. Nesse contexto, a colônia brasileira deveria acompanhar as reformas, com vistas à preparação de uma elite administradora e ao desenvolvimento da produção de matérias primas de interesse para a indústria portuguesa ou de produtos como o açúcar, que seriam comercializados através de Portugal.
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PROFESSOR ELIAS CELSO GALVÊAS
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