O Rei dos Clones - Em um futuro próximo...
Conto escrito por Moacyr Scilar
Extraído da revista Galileu - ano 11, número 123 (outubro de 2001).
Revisão de texto e contribuições do Professor Elias Celso Galvêas.
Em 2050 a clonagem humana há havia se tornado rotina. Superados os problemas técnicos e apesar das restrições éticas feitas, sobretudo, pelas ONGs, o procedimento já não chamava mais a atenção. Mas, como sempre acontece com tais inovações, surgiram situções absolutamente inesperadas, criadas por personagens singulares.
Max Kluskim, conhecido como "O rei dos clones", era um destes. Europeu sem nacionalidade definida - o que pouco importava, num mundo completamente globalizado -, era considerado um dos maiores experts em clonagem. Iniciara sua carreira como pesquisador; um dia, porém, cansado de ser pobre (palavra dele), decidira usar seus conhecimentos para ganhar dinheiro. Como? Industrializando a produção de clones. No que estava, aliás, atendendo a uma oculta demanda. Apesar de igualdade entre povos e pessoas, a exploração ainda estava presente em certas regiões, não necessariamente as mais pobres. Misteriosas empresas empregavam mão-de-obra com fins nebulosos. Chefes locais queriam mercenários.
Kluskim, que não era exatamente um defensor dos direitos humanos, logo se deu conta de que estava diante de uma potencial mana de ouro. Resolveu aproveitar a oportunidade. Abriu o seu próprio laboratório e começou a produzir clones sob encomenda. Além de dominar perfeitamente a técnica da clonagem, Kluskim havia introduzido uma revolucionária modificação no processo: mediante certos genes e derivados hormonais, acelerava o crescimento cecelular e o desenvolvimento orgâncio, com tal rapidez que, em poucos dias - às vezes em horas -, um embrião transformava-se num ser completo. Ou seja: feito o pedido, ele rapidamente podia entregar aos solicitantes clones jovens ou adultos.
O empreendimento se expandiu extraordinariamente. Em breve, Kluskim tinha sob o seu comando dezenas de técnicos e auxiliares. E aí começou a a refinar a técnica, atendendo a pedidos especiais. Olhos azuis? Sem problema. Pernas compridas, para um futuro atleta? Fácil, muito fácil. Cérebro orientado para a ciência? Claro, é só pedir! E havia também clones especialmente desenhados para certas ocupações. Mordonos, por exemplo: clones de fisionomia circunspecta, diposição para o trabalho caseiro, fidelidade. Seguranças: jpovens de grande força física, capazes de correr qualquer risco. Secretárias: moças bonitas e inteligentes. O departamento de marketing da empresa exibia, em na internet holográfica, clones para as diferentes funções: "Alô, eu sou Órion, o seu massagista. Minhas mãos foram especialmente desenhadas para o trabalho que eu vou exercer, como seu corpo poderá constatar. Tenha-me a seu serviço e você não se arrependerá".
A notícia se espalhou. Algumas pessoas ficaram, claro, encantadas; mas a opinião pública reagiu com surpresa e até indignação. Organizações formaram-se no mundo todo para lutar contra o que era chamado de "linha de montagem humana". Intelectuais, médicos e educadores assinaram uma petição exigindo o fim das atividades de Kluskim. O caso foi parar na Corte Mundial. A defesa de Kluskim estava a cargo de 12 dos mais hábeis advogados do miundo, porém seus sofimas resultaram inúteis e os júizes deram a setença: em nenhum lugar da terra Kluskim poderia fabricar seus clones. Parecia o término da carreira daquele a quem miuitos rotulavam de cientista louco. Mas Kluskim era, antes de tudo, muito esperto. Reuniu todos os seus assessores para dizer que continuaria, sim, produzindo cones.
- Mas como? - indagou o chefe do laboratório, surpreso. - Nenhum lugar da Terra nos receberá!
- Kluskim, um homem baixo, gordo, calvo, olhos frios e astutuos, sorriu, irônico, sorriu, irônico:
- Você o disse: em nenhum lugar na Terra. Mas e fora da Terra? Se estivermos no espaço cideral?
E aí, revelou o seu plano.
Já há algum tempo, prevendo uma possível complicação, tinha adquirido uma enorme estação espacial, ainda em órbitra, porém desativada. O que, do ponto de vista legal, era a solução perfeita. Estações espaciais não eram consideradas parte do planeta; a elas não se aplicavam, portanto, a legislação terrena. E não haveria maiores inconvenientes: teriam espaço para instalar o laboratório, além de alojamento para todos os trabalhadores. E haveria também um sistema de transporte entre a estação e a sede na Terra.
- Vocês decerto ouviram falar daquilo que, no começo do século, era chamado de paraíso fiscal: um lugar para onde o capital migrava, ficando fora do alcance de autoridades. Pois bem, nós nós vamos ter o primeiro paraíso da clonagem. E conto com a colaboração de vocês para isso.
- Mas quem não estiver de acordo, pode sair. Já.
Klukim era assim, implacável. Quem não estava com ele, estava contra ele. E ai de quem estivesse contra. Circulava uma história, nos meios ligados à clonagem, de que, no início de sua carreira, ele tivera como rival um telentoso cientista. Esse homem subitamente desaparecera. Também se dizia que Kluskim tinha, escondido, um clone encarregado do serviço sujo: um homem ainda jovem, com descomunal força física, programado para liquidar pessoas. Essa era apenas uma das lendas que contavam sobre ele.
Ninguém se levantou. Kluskim sorriu.
- Muito bem. Já tenho pronto o cronograma de mudança. Em um mês estaremos na estação espacial.
O cronograma foi cumprido à risca e, em um mês, a estação, chamada Paraíso I, estava em funcionamento. Era uma estrutura com mais de oito Km de comprimento por um de largura, capaz de albergar centenas de pessoas. Naves espaciais levaram Kluskim e sua equipe até a Paraíso I. Sua partida foi comemorada pelas ONGs que o hostilizavam. A nova escravidão acabou antes mesmo de começar, diziam todos.
Estavam enganados, naturalmente. Em breve a clonagem estaria funcionando a todo vapor. Mais que isso, demandas chegavam continuamente, através dos numerosos agentes que Kluskim Espalhara pelo globo. Eles sabiam como chegar a potenciais clientes. Apesar dos preços agora mais elevados, os pedidos eram constantes. O "Rei dos Clones" vencera.
UMA PEQUENA FALHA
Isso, pelo menos, era o que ele pensava: afinal, um plano tão bem elaborado só podia dar certo.
Mas esse plano havia uma falha: PQ-37.
PQ-37 era o meu nome. E que eu era? Um jovem e vigoroso clone. Como todos os clones de Kluskim, não tinha nome, e sim um código. Eu fora criado para trabalhar na indústria da computação. Meu cérebro, devidamente programado, era o equivalente biológico de um computador Eu não devia pensar em coisa alguma [não deveria ter pensamentos próprios], tampouco sentir afeto algum. E, de fato, passava os dias imóvel, aguardando o momento em que seria remetido a meu futuro proprietário, na Terra. Desse período, aliás, lembro pouco. Minha memória para o cotidiano era muito restrita.
Mas aí, algo começou a acontecer. Quado dei por mim, estava pensando. Não em computação, mas outras coisas. E pensar, para mim, era uma coisa nova e perturbadora. Vocês talvez não acreditem nisso, por estarem acostumados a pensar; mas para mim era quse uma aventura, e chegava a assustar.
O que tinha havido? Por que eu estava pensando? Dei-me conta de que só poderia ser por um erro genético. Kluskin cometera algum engano! Regiões do meu cérebro que deveriam permanecer inativas agora davam sinais de vida; como se eu estivesse saindo de um coma. E, de fato, estava entrando na realidade. Uma realidade que me parecia estranha. Sentado, como de costume, no compartimento dos clones (havia alí uns 40 deles), eu já não permanecia apático: obervava os técnicos, tentando ouvir e entender o que falavam. E o que falavam - sem se dar conta que agora um dos clones podia pensar no que diziam - estava sendo muito revelador. Percebi que eu não passava de um produto prestes a sair da linha de montagem de Max Kluskim.
Que raramente aparecia. Quase sempre ficava fechado em seu gabinete, dando ordens ou falando com clientes pelo seu sofisticadíssimo sistema de telecomunicações. Dali, ele decidiria o meu futuro...
Aos poucos, uma imensa revolta foi nascendo em mim. Revolta combinada com amargura: dava-me conta de minha triste situação, mas sentia-me impotente diante do inexorável futuro. Amaldiçoava-me pelo defeito de programação cerebral que me permitia tomar consciência da situação - mas não de alterá-la!
Mas será mesmo que eu não podia fazer nada? Tinha eu alguma coisa a perder?
Talvez pudesse. Talvez pudesse fazer alguma coisa! Havia, pelo menos, uma alvo: Kluskim.
Ele era a chave de todo o processo. Todos alí obedeciam cegamente aos seus comandos. Sem Kluskim, a fabricação de clones chegaria ao fim. Mais do que isto: sem Kluskim, os clones poderiam ser libertados,e , mais importante: transformados - pela própria engenharia genética que os criara, ou por um processo de reeducação - em seres humanos normais. O meu caso, aliás: eu estava a caminho da normalidade, ainda que fosse dolorosa.
Mas o que fazer? Matar Kluskim? Sequestrá-lo?
Isto era uma coisa que me repugnava, a violência. Além disto, seria uma missão impossível: o homem estava sempre acompanhado de um guarda-costa, um clone fortíssimo, produzido para protegê-lo.
Não. Eu tinha de pensar em outra coisa. Em quê? Nada me ocorria, e isto era desesperador, sobretudo por que o tempo era escasso; das conversas que ouvia, depreendi que todos os clones estavam sendo negociados com um poderoso empresário da Terra. Breve seríamos vendidos. O que, para mim, talvez fosse uma oportunidade para a fuga. Mas e meus companheiros? Quem os libertaria? E Kluskim, ficaria impune?
E então, olhando para meus companheiros de compartimento, uma idéia brtou-me na mente, uma idéia que parecia fantástica, mas que talvez fosse uma solução: um clone do próprio Kluskim! Um clone igual a ele, capaz de assumir o comando da estação.
Naquela noite, enquanto todos dormiam, esgueirei-me até o laboratório de clonagem. Alí estavam todos os manuais de procedimento. Graças ao meu cérebro fantástico, rapidamente assimilei toda aquela tecnologia; em algumas horas, estava pronto para fabricar um clone. Só precisava de uma minúscula amostra dos tecidos de Kluskim. Como conseguí-la?
O acaso ajudou. No dia seguinte, o próprio Kluskim apareceu no compartimento, para uma inspeção. Foi passando pelos clones, todos imóveis. Eu aguardava, o coração batendo forte. Quando o homem passou por moim, num gesto rápido e aparentemente sem propósito, arranhei-lhe o braço.
- Que diabos é isto?! - Gritou Klustim. E virando-se para um assessor, ordenou: - Este clone vai ser despachado depois de amanhã. Antes disto, vamos fazer uma revisão nele. Era só o que faltava, ter aborrecimentos com o cliente.
E saiu. Mal pude conter um sorriso. Em minhas unhas, estava aquilo de que precisava: algumas células do poderoso Kluskim.
Não podia perder tempo. Mal anoiteceu, fiu para o laboratório e me pus a trabalhar afanosamente. Coloquei as células na câmara adequada e a programei para operar na maior velocidade. Deu certo: em poucas horas, surgia o novo Kluskim, igual ao original. Nasceu nú, naturalmente. Felizmente, os técnicos haviam deixado uma vestimenta espacial, igual à que todos usavam na estavam, inclusive Kluskim.
Expliquei ao novo clone - que surgia para a vida atordoado, mas dócil e disposto - o que tinha de fazer. Correndo pelos corredores, na semi-obscuridade, chegamos aos aposentos do chefe. De novo, tivemos sorte: o guarda-costas estava ali sentado, profundamente adormecido. Entramos, subrepticiamente. Kluskim estava deitado, dormindo. Nós o agarramos e, antes que pudesse esboçar qualquer reação, injetamo-lhe um poderoso sonífero, tirado da farmácia de bordo. Em poucos segundos ele jazia inerte, completamente dopado. Sempre com a ajuda do seu clone, coloquei-o embaixo da cama. O clone ficou ali - no lugar de Kluskim - e eu voltei ao compartimento. [E, silenciosamente, destruímos a sofisticada aparelhagem de comunicação paraticular de Kluskim - impossibilando a única possibilidade de contato da estação com a Terra].
De manhã, os alto-falantes convocaram todos os membros da equipe, e mais os clones, para uma reunião de emergência no salão principal. Fui para lá. A perplexidade era geral: o que estaria acontecendo?
E aí apareceu Kluskim, o falso Kluskim:
- Houve uma mudança de planos - disse, seco. - Estamos voltando para Terra imediatamente!
A surpresa foi geral. Mas ordens de Max Kluskim, uma vez dadas, não podiam ser discutidas. Em poucas horas estávamos todos a bordo da nave que tinha chegado da Terra no dia anterior. Quando chegamos ao destino, Kluskim - o falso Kluskim - anunciou que estava abandonando a produção de clones. Cada um deve seguir o seu próprio caminho...
Com o auxílio da ONG "Liberdade para os Clones", consegui ajuda para os meus ex-companheiros de cativeiro. Com o tempo, todos foram recuperados e se rotnaram seres humanos normais.
Kluskim continua a bordo da esração espacial, que tem víveres para muitos a anos. Ele poderá voltar quando quiser, naturalmente, mas pelo jeito não pretende fazê-lo. Talvez tenha outros planos. Um paraíso fiscal no espaço, quem sabe?
Conto escrito por Moacyr Scilar
Extraído da revista Galileu - ano 11, número 123 (outubro de 2001).
Revisão de texto e contribuições do Professor Elias Celso Galvêas.
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