O presente trabalho visa apresentar os principais antecedentes neurofisiológicos que serviram de alicerce para a fundação da Psicologia Científica, delimitando-os aos estudos realizados acerca da natureza e do funcionamento do sistema nervoso (neurofisiologia), durante o século XIX e início do século XX. Basicamente, tais estudos e pesquisas realizadas neste período focavam os seguintes aspectos:
os processos sensório-motor básicos;
a fisiologia dos reflexos;
as tentativas de relacionar funções específicas a diferentes áreas do cérebro (o descaminho da frenelogia);
o estudo do neurônio como unidade básica do sistema nervoso
enfim, como surgiu a Psicologia científica?
Encerraremos o trabalho descrevendo a pesquisa de Karl Larshley acerca do papel do córtex cerebral na aprendizagem, bem como tecendo as considerações finais do grupo a respeito do assunto.
Abaixo, temos um roteiro panorâmico de cada item que pretendemos discutir/descrever:
1. A Contribuição do Pensamento Iluminista para o Surgimento da Psicologia Científica: transição de paradigmas.
2. A Pesquisa de Whytt sobre o Ato Reflexo
3. A de Lei de Magendie: a descoberta dos nervos sensórios e motores
4. A Doutrina das Energias Específicas dos Nervos
5. Helmholtz e o Cálculo da Velocidade dos Impulsos Nervosos
6. A Contribuição de Helmholtz para a Visão, Audição e o Problema da Percepção.
7. Os Princípios Essenciais da Frenologia.
8. O Método da Ablação e a Refutação de Flourens à Frenologia.
9. O Método Clínico para a Compreensão da Função do Cérebro.
10. O Método da Estimulação Elétrica e os Resultados por ele Produzidos.
11. A Atividade Neuronal e a Pesquisa Conclusiva sobre a Necessidade da Existência das Sinapses.
12. A Pesquisa de Lashley sobre o Cérebro e a Aprendizagem e seus Resultados.
13. Conclusões e considerações Finais.
O Pensamento Iluminista: a ruptura de paradigmas abrindo caminho para o surgimento da Psicologia Científica
O ápice da influência do movimento iluminista na Europa ocorreu na segunda metade do século XVII, tendo a essência de suas idéias e ideais se proliferado fortemente durante o XIX e XX.
O Iluminismo foi um movimento eminentemente pós-renascentista, que fez a fé do homem se deslocar da religiosidade excessiva (a qual o homem medieval estava imerso) para a crença na possibilidade da ciência, ou melhor, da metodologia científica ser um novo instrumento prático e objetivo - de averiguação da realidade, que seria totalmente desprovido dos antigos valores que ofuscavam a racionalidade na busca da verdade.
Esse é o início do fim do obscurantismo teocêntrico medieval, onde a luz da razão científica - aliada ao florescimento da filosofia humanista (antropocentrismo) cede lugar a dogmas, abstrações e superstições sem fundamentação, passando a servir de guia para o desvelamento objetivo da complexidade da realidade que nos cerca.
(...) Se o pensamento científico e a razão humana podiam iluminar o mundo no que se refere à física e à química, por que não no que diz respeito à biologia? E, nesse caso, por que não também à psicologia? (...). (página 79).
A ruptura de paradigma do religioso para o científico - fez com que a convergência dinâmica e simultânea entre o pensar filosófico e a ciência fisiológica acabassem por gerar, paulatinamente, um ambiente onde a efervescência da psicologia científica fosse um acontecimento necessário e inevitável.
Na tentativa de lançar luz sobre o real funcionamento dos sentidos e do sistema nervoso, os fisiologistas criaram métodos e promoveram des-cobertas diretamente relevantes para as questões epistemológicas sobre a natureza e as origens do conhecimento humano que estavam sendo levantadas por filósofos como John Stuart Mill.
(pág.79).
Ademais, a maior parte dos avanços médicos-científicos acabou ocorrendo no contexto das guerras que assolaram a Europa em meados do século XVIII, bem como das revoluções francesas e norte-americanas ocorridas na mesma época.
O principal objetivo da comunidade médica, nesse período, foi utilizar-se dos conflitos a fim de observar e pesquisar os danos cau-sados ao sistema nervoso e ao cérebro dos soldados feridos em combate.
Dessa forma, o problema que mais passou a suscitar o interesse da comunidade científica consistia no desvelamento de uma questão que, na época, colocava-se como um verdadeiro enigma a ser decifrado: saber se o cérebro era de fato o centro da consciência e do controle de toda a ação voluntária.
E o presente trabalho tenta conferir ao leitor os caminhos epistemológicos que levaram os cientistas da época a descobertas interessantes e de extrema importância, que acabaram servindo de base para o nascimento de um novo saber, que passaria a ser respaldado pela metodologia científica: a Psicologia.
A Pesquisa de Whytt sobre o ato reflexo
A existência dos tipos de reflexos documentados por Whytt exige que se faça uma distinção entre os componentes sensório e motor de uma reação, o que, por sua vez, implica que certos nervos possam destinar-se à transmissão de informações sensórias e outros, à transmissão de mensagens aos músculos, dizendo que se movimentem.
(página 81).
Com suas descobertas sobre o ato reflexo, o neurologista escocês Robert Whytt (1714 1766) foi de fundamental importância para a história da psicologia. Sua pesquisa baseou-se na observação da participação de diferentes agrupamentos de nervos nos movimentos e sensações do indivíduo, tendo suas observações o auxiliaram na importante distinção entre atos voluntários e involuntários, na região do corpo em que se origina a criação de hábitos.
Em sua pesquisa, percebeu que em animais que tinham a cabeça separada do corpo, alguns reflexos ainda continuavam a ocorrer de forma previsível aos respectivos estímulos. Tomou como exemplo um sapo decepado onde, ao se beliscar sua perna (estímulo), uma determinada contração muscular é evidente (resposta). Com isto, Whytt demonstrou que, ao se cortar a ligação da perna com a medula espinhal, as contrações deixavam de acontecer fato que evidenciava a importância da medula espinhal no comportamento reflexo.
Dessa forma, Whytt deduz, por observação empírica, que movimentos controlados pela vontade do indivíduo possuem sua origem no cérebro, e são considerados atos voluntários; enquanto que, por outro lado, movimentos controlados pela medula espinhal são considerados atos involuntários, por não dependerem diretamente da vontade do indivíduo.
No entanto, na repetição excessiva do mesmo estímulo, um movimento voluntário passaria a utilizar menos o cérebro e mais a medula espinhal, assemelhando-se a um ato involuntário. Mesmo um simples pensamento seria capaz de ativar automaticamente esse reflexo (geração de hábitos).
A contribuição de Whytt foi de extrema importância, pois serviu de pedra angular para inúmeras outras pesquisas, assim como as de Pavlov e de Skinner (Behaviorismo).
A Importância da Lei de Bell-Magendie
As pesquisas de Bell e Magendie quase aconteceram simultaneamente. A de Charles Bell foi a primeira, porém, foi incompleta e suas conclusões errôneas; enquanto a pesquisa de Magendie conseguiu demonstrar - na prática e com um maior grau de precisão - aspectos muito importantes dos nervos sensórios e motores.
Bell descobriu duas raízes, uma posterior e uma anterior. Seu erro foi acreditar que ambas possuíam a mesma função, motoras e sensórias. Publicou sua descoberta apenas em um ciclo de amigos
Magendie pode observar a raiz posterior e anterior (dorsal e ventral) em suas experiências em animais. Viu que cortando as fibras posteriores, o animal mantinha o movimento, mas nenhuma sensibilidade, o contrário aconteceu quando ele cortou as fibras anteriores, havia sensibilidade, mas nenhum movimento. Ficou claro, com isto, que a raiz posterior controlava as sensações; enquanto a raiz anterior, o movimento.
Onze anos depois da descoberta de Bell, Magendie foi acusado por ele de reproduzir sua descoberta. Magendie sabendo disso reconheceu o valor da pesquisa anterior, mas não abriu mão de corrigir as verdadeiras funções de cada raiz e atribuir a si mesmo essa descoberta.
A Doutrina das energias específicas dos nervos
Uma importante contribuição de Charles Bell para a fisiologia diz respeito a descobertas sobre a funcionalidade dos nervos. Em seu folheto publicado no ano de 1811, apresentou o argumento de que nervos sensórios diferentes possuem qualidades diferentes.
Um exemplo dado por Bell foi o das papilas da língua, onde sugere a coexistência de dois diferentes receptores, que podem transmitir - simultânea ou isoladamente - dois diferentes efeitos: uns responsáveis pelo paladar (papilas gustativas), e outros responsáveis pelas sensações táteis.
Dessa forma, quando uma papila relacionada ao tato é tocada por um objeto metálico pontiagudo e afiado, a sensação é de agudeza. Quando uma relacionada ao paladar é tocada pelo mesmo objeto, a sensação é a de um sabor metálico. Ademais, papilas de diferentes funções também podiam ser acionadas simultaneamente: sensação de sabor e de temperatura (quente ou frio), por exemplo.
Em outras palavras, Bell defende a existência de nervos diferentes exercendo diferentes funções, considerando-se a com-posição de uma mesma estrutura. Ao contrário do imaginado na época, Charles Bell afirmava que o modo como o mundo externo é percebido não é generalizado e sim muito específico e separado por funções distintas. Assim sendo, um nervo ótico, por exemplo, não foi projetado para provocar a sensação de sabor; da mesma forma que um nervo do paladar é incapaz de sentir textura, ou qualquer espécie de sensação tátil.
Outro exemplo relacionado é o do olho que possui nervos óticos que são, por sua vez, estimulados por ondas luminosas. Porém, mesmo se mudarmos o estímulo para o qual nervos óticos foram projetados, se for provocada uma pequena pressão com o dedo no lado do globo ocular, por exemplo, uma sensação de clarão luminoso ocorrerá em decorrência do feito.
A doutrina das energias específicas dos nervos foi mais detalhada e estudada por Johannes Müller (1801 1858). Além de explicar mais detalhadamente as concepções de Charles Bell, adicionou uma questão que deu início ao problema da percepção, ao argumentar que: em nossa percepção, não temos consciência direta do mundo exterior, mas somente percebemos a interação do sistema nervoso com a realidade externa.
O conhecimento do mundo é filtrado pelas estruturas neurofisiológicas inatas ao indivíduo e a noção de realidade vai se impregnando em nossa consciência, através da experiência contínua com tudo o que nos cerca.
Neste ponto, é possível observar um início do que posteriormente se apresentou como uma parte do estudo da psicologia, o estudo perceptual e sensorial, que percebe e, ao mesmo tempo, organiza as informações. Juntamente, se mostra o início do pensamento da relatividade da percepção. De acordo com Müller, se a fisiologia é um filtro, diferenças na fisiologia provocam percepções diferentes nos indivíduos.
Helmholtz e o Cálculo da Velocidade dos Impulsos Nervosos
Já na segunda metade do século XIX, o principal fisiólogo foi Hermann Von Helmholtz (1921 1894), considerado o principal responsável pela ponte entre a fisiologia e a psicologia, hoje percorrida em ambos os sentidos por tantos estudiosos.
Apesar de Físico (não era médico), Helmholtz deu grandes contribuições à medicina, com seus estudos sobre os mecanismos da percepção, assim como a visão de cores e da audição (ressonância auditiva) - e que serão analisados mais detalhadamente a seguir.
Ainda hoje, as observações e resultados das pesquisas de Helmholtz são considerados parcialmente corretos. Mas em relação à psicologia propriamente, o mais importante avanço foi uma demonstração da velocidade dos impulsos nervosos, o que abriu caminho para um dos métodos mais utilizados na mesma: o tempo de reação.
Para calcular a velocidade dos impulsos nervosos, Helmholtz isolou um nervo motor e um músculo da perna de um determinado sapo. Estimulando o nervo eletricamente, a diversas diferentes distâncias do músculo, registrou o tempo entre estímulo e reação (a velocidade é a relação entre a distância percorrida, e o tempo decorrido para se percorrer essa distância).
Após inúmeras experimentações, o resultado obtido foi de 90 pés por segundo - ou 95 km/h. Helmholtz também demonstrou que seres humanos demoram mais a reagir a um estímulo no dedo do pé do que um na coxa: devido ao fato do dedo do pé estar mais distante dos centros que emanam o estímulo, do que a coxa propriamente (dada uma velocidade sempre constante: quanto maior a distância a ser percorrida, maior será o tempo que o móvel levará para consumar o movimento).
A Contribuição de Helmholtz para a visão, audição e o problema da percepção
Por volta de segunda metade do século XIX, Hermann Von Helmholtz (1821-1894), apesar de físico, já era considerado o fisiólogo dos fisiólogos. Sua imensa fama deve-se, provavelmente, à elaboração de sua Teoria Tricromática, que se fundamentou em experiências envolvendo a percepção de cores pela visão.
Direcionando o foco de um holofote vermelho em uma parede, e sobrepondo-o a um verde, as cores superpostas se combinarão em uma nova cor: o amarelo. Dessa forma, Helmholtz demonstrou que ao se combinar duas a duas as três diferentes cores: o vermelho, verde e o violeta (cores primárias), a resultante era sempre outra cor diferente das duas inicialmente combinadas (cores secundárias).
A partir dessas observações experimentais, Helmholtz especulou sobre a existência hipotética de três diferentes tipos de fibras receptoras: a 1ª, relativa às fibras sensíveis ao estímulo da luz avermelhada; a 2ª, das sensíveis à estimulação da luz verde; a 3ª, das sensíveis ao estímulo da luz violeta.
Em termos funcionais, e em decorrências das estruturas supracitadas, poderíamos nos deparar, portanto, com as seguintes situações:
A luminosidade da luz vermelha pura estimularia fortemente as fibras que fossem sensíveis ao vermelho, e de modo débil os demais tipos de fibra, o que produziria a percepção do vermelho, ou capacidade de ver o vermelho.
A luminosidade da luz verde pura estimularia fortemente as fibras sensíveis à cor verde, e de modo mais débil os demais receptores, o que resultaria na percepção do verde, ou capacidade de ver o verde.
O mesmo processo ocorrerá com a luminosidade do puro violeta.
E se isto acontece com as cores primárias, como explicar, seguindo esta mesma linha de raciocínio, a percepção de cores secundárias, como o amarelo (vermelho x verde)?
A luminosidade amarela pura estimularia simultaneamente as fibras sensíveis ao vermelho e ao verde, e de modo débil, as sensíveis ao violeta, produzindo, dessa forma, a percepção do amarelo.
E o mesmo processo acima descrito aconteceria na geração das demais cores secundárias que, como já mencionado, são resultantes das combinações duas a duas das cores primárias: vermelho, verde, violeta.
A Teoria Tricromática de Helmholtz sustentou-se, em parte, por um longo período de tempo. Contudo, ela não logrou o êxito esperado na explicação de certos fenômenos, que acabaram sendo melhores elucidados por teorias posteriores.
(...). Um dos problemas da Teoria Tricromática era sua previsão de que alguém que sofre de daltonismo pronunciado tampouco seria capaz de ver o amarelo adequadamente. Segundo Helmholtz, o amarelo [cor secundária] exigia que a estimulação de fibras receptoras de vermelho e verde apresen-tasse bom funcionamento, as quais não estariam presentes nos daltônicos. Contudo, eles enxergam o amarelo. (...).
(página 86).
A visão de cores, no entanto, representou apenas uma pequena fração dos estudos de Helmholtz sobre a visão. Como físico que era, analisou igualmente questões fundamentais da ótica, do gênero: como a luz é enfocada na retina?.
Com isto, foi o pioneiro na elaboração de
uma análise sistemática de como os raios luminosos são curvados, tanto pela córnea quanto pelo processo da acomodação, no qual a lente muda de forma para alterar o foco dos objetos a diferentes distâncias.
(página 87)
Audição
Helmholtz já teria entrado para a história se tivesse restringido seus estudos apenas à questão da audição. Contudo, em 1863, publicou um texto intitulado A Teoria da Sensação do Tom como Base Fisiológica para a Teoria da Música, que se transformou rapidamente em referência no estudo da audição, sendo usado nos meios acadêmicos até os dias de hoje.
Na obra supracitada, Helmholtz apresentou ao mundo sua famosa Teoria da Ressonância da Audição, onde sugeria que frequências de sons diferentes seriam detectados por receptores situados em diferentes pontos ao longo da membrana basilar da cóclea (página 87).
É interessante observar que tanto a Teoria Tricromática da visão de cores quanto a Teoria da Ressonância da Audição tiveram como ponto de partida a Doutrina de Müller da energia dos nervos (página 87).
No entanto, a diferença fundamental entre as teorias é que a de Helmholtz sugeria a existência de mais de uma energia específica para cada um dos sentidos básicos (três, no caso da visão em cores, por exemplo); enquanto que a de Müller (já mencionada no presente trabalho) baseava-se na existência de apenas uma energia específica para cada um dos cinco sentidos.
Hemlholtz e o Problema da Percepção
Por um lado, os sistemas sensórios humanos destinados à visão e à audição pareciam singularmente apropriados. Mas por outro lado, as estruturas destinadas a possibilitar a existência desses sentidos pareciam terrivelmente falhas.
(pág.87).
Portanto, considerando que as próprias estruturas que captam os sentidos contribuem, ao mesmo tempo, para distorcer a percepção que se tem da realidade, o que igualmente contribui para tornar essa percepção impura, Helmholtz parte para seguinte indagação: o que exatamente explica a qualidade de nossa percepção?.
(...) A resposta, segundo ele, encontrava-se na doutrina específica dos nervos e na filosofia empirista tradicional. Assim, pelo fato de o nosso sistema nervoso mediar entre a realidade e a mente, nossa percepção do mundo exterior é apenas indireta. (...). (pág.88).
Seguindo essa linha de raciocínio, Helmholtz deduziu que o papel da experiência prática de se lidar com a realidade deveria ser um elemento crucial para a percepção da realidade, conforme nos habituamos a concebê-la.
Ainda segundo Helmholtz:
(...) As informações brutas processadas pelos sistemas sensórios são, portanto, insignificantes em si, ganhando sentido só quando uma determinada combinação de eventos sensórios se associa a conseqüências específicas. (...).
(pág.88).
Assim, a percepção, segundo sugere Helmholtz, dar-se-ia através de um conjunto de inferências inconscientes baseadas em nossas bagagens de experiências pregressas, que se juntam, a fim de formar a percepção da realidade como um todo.