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ANTECEDENTES NEUROFISIOLÓGICOS DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA - Parte II
Por Elias Celso Galveas


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Antecedentes Neurofisiológicos da Psicologia Científica - Parte II

Os princípios essenciais da Frenologia

Quem deu origem à frenologia foi um médico e estudioso Franz Josef Gall. Sua teoria é historicamente significativa por ter sido a primeira a tratar seriamente da localização das funções cerebrais. Gall também é considerado, com justiça, um dos primeiros a afirmar que o cérebro é o órgão dos componentes intelectuais e emocionais da mente. No entanto, além de fundamentar erradamente as funções, relacionou-as com localizações equivocadas – que gerou, igualmente, um mapeamento equivocado do cérebro.

Ademais, sem bases concretas de experiência prática, Gall tentou estabelecer uma correlação entre o formato anatômico da cabeça humana e certas características comportamentais das pessoas. Para isso, seguiu em busca de provas “consistentes” de casos que servissem de apoio as suas teorias.

O termo “frenologia” surgiu, depois, com seus seguidores. Um deles, Spurzheim, colaborador de Gall por algum tempo, mas depois veio a romper com este. Ele falou dos princípios essências da frenologia, como:
• O cérebro é o órgão da mente
• A mente compõe-se de várias habilidades chamadas “faculdades”, seja ela intelectual (cognitiva) ou emocional, e que cada faculdade tem seu local no cérebro.
• Pessoas que são mais dotadas em certas faculdades, têm mais tecido cerebral em tal localidade e conseqüentemente aumenta o crânio.

O mais importante dos princípios foi o conhecido como Doutrina do Crânio, que defendia a tese de que o que havia de mais importante na tentativa de analisar um indivíduo era o formato do seu crânio, o que conferia mais ênfase a formas vistas de maneira isolada, do que ao conjunto de funções constituintes do indivíduo – e que o faria funcionar como um todo integrado.

Contudo, apesar de um enorme sucesso nos Estados Unidos, a grande falha da frenologia pode se resumir ao fato de que os cientistas, no registro de suas observações, baseavam-se em casos específicos escolhidos a dedo, e que, geralmente, serviam de apoio a sua teoria. Em outras palavras, os casos de indivíduos que não se encaixassem nos padrões daquilo que almejavam comprovar simplesmente eram “varridos para baixo do tapete”.

Porém, é algo relevante observar que, apesar de toda controvérsia de se chamar de ciência uma pseudo-ciência, a frenologia, ao longo do séc. XIX, acabou por fazer nascer uma noção de que cada pessoa é única, em sua individualidade.

O Método da Ablação e a Refutação de Flourens à Frenologia

Flourens foi um fisiólogo-cirurgião que se colocou como principal crítico da frenologia, através de provas baseadas em suas experiências – que ficaram conhecidas como “Método da Ablação” - “ablação” é uma palavra retirada do latim que significa “retirar”, “arrebatar”.

O método da ablação consistia em remover partes específicas do cérebro. Fez isso, com base nos estudos das ações cerebrais e as localidades propostas pelos frenologistas, ou seja, ele contradizia as teorias frenologistas retirando uma parte específica do cérebro que os frenologistas chamavam de tal personalidade, e com base no experimento o efeito da retirada causou outro efeito não afetando tal personalidade que os frenologistas defendiam. Resumindo: as áreas do cérebro que seriam responsáveis pela função X, na verdade serviam para a função Y. Ele também falou que o córtex cerebral funciona como um todo e não como um grupo enorme de faculdades.

Apesar de Flourens encontrar meios que impediram a recuperação da frenologia, ele também falhou ao defender que não existia qualquer possibilidade de localização no cérebro.

O Método Clínico e a Compreensão da Função do Cérebro

O método clínico é uma alternativa ao estudo da função cerebral humana, constituindo-se em uma estratégia de investigação que requer o estudo das conseqüências mentais e comportamentais dos diversos danos que o cérebro pode vir a sofrer, como derrames, Lesões, e diversos outros males. A identificação de portadores de distúrbios mentais e comportamentais, da genialidade (superdotação), bem como o estudo de seu cérebro após a morte, também são atribuições do método clínico.

A abordagem clínica foi utilizada de forma pioneira por Paulo Broca, que estudou o cérebro de diversos pacientes afásicos, ou seja, com problemas na formulação da linguagem falada. Inclusive, um de seus pacientes ficou muito famoso – e conhecido por Tan - por ser capaz de pronunciar apenas a sílaba “tan”.

Após a morte desse paciente, Paulo descobriu que o cérebro de Tan tinha uma zona destruída por neurosífilis, a qual foi delimitada à área cortical de um lado dos hemisférios cerebrais anteriores: esta parte do cérebro ficou conhecida como “Centro de Broca”, sendo responsável pelo controle da expressão motora da fala. Seus estudos foram confirmados por muitos neurologistas posteriores a ele.

No entanto, a pesquisa de Broca acabou colocando em questão as conclusões de Flourens acerca do grau de localização das funções a serem encontradas no cérebro. Dessa forma, novos indícios de localização foram propiciados pelos estudos clínicos realizados pelo neurologista alemão Carl Wernicke, que descobriu uma área (similar à de Broca), no lobo temporal, que, quando lesada, provocava um déficit sensorial da linguagem, tornando o paciente incapaz de reconhecer palavras faladas, mesmo que tivesse sua audição intacta. Wernicke postulou que essa área era conectada por sistemas de fibras nervosas à área de Broca, formando, assim, um sistema complexo, responsável pela compreensão e expressão da linguagem falada.

O Método da Estimulação Elétrica e Resultados por ele Produzidos

No século XIX, as descobertas sobre a natureza da eletricidade estavam sendo aplicadas às pesquisas sobre a fisiologia sensória, fazendo evoluir a idéia de que as atividades neurológicas possuíam a natureza eletro-química.

Nesse contexto, Edward Hitzig (1838 – 1907) e Eduard Fritsch (1838 – 1927), dois jovens fisiólogos alemães, deram início a pesquisas investigativas que objetivavam averiguar se a superfície do córtex reage ao estímulo de correntes elétricas fracas.

Embora o nome de ambos estivesse relacionado à pesquisa, o principal investigados foi de fato Edward Hitzig, que dedicou sua vida inteira à observação e pesquisas relacionadas ao cérebro. Eduard Fritsch logo abandonou a fisiologia para se dedicar à antropologia. Hitzig observou os movimentos musculares ao expor o cérebro à estimulação mecânica. No entanto, acreditava-se que o toque na superfície cerebral não produziria efeitos consideráveis.

Hitzig e Fritsch realizaram experimentos com vários cães, acionando diferentes superfícies cerebrais, e tendo como estímulo uma corrente elétrica que mal provocava uma sensação sensória na língua, mas, por outro lado, em outras áreas eletricamente estimuladas, os movimentos eram mais consistentes.

A importância dessa pesquisa foi na contribuição sobre as evidências (agora cientificamente fundamentadas) da relação existente entre localização e função cerebral, abrindo caminho para a identificação de inúmeros centros motores no cérebro.

Posteriormente, as pesquisas inicialmente realizadas por Fritsch e Hitzig, motivaram inúmeros fisiólogos a mapear as áreas motoras em outras superfícies, e com uma precisão muito mais apurada.

Outro neurologista com uma pesquisa importante sobre estimulação elétrica foi David Ferrier (1843 – 1928), que, além das funções motoras, contribuiu para ampliar a identificação e determinação das localizações, ao localizar também diversas áreas sensoriais.

Atividade Neuronal e a Pesquisa Conclusiva sobre a Existência das Sinapses Nervosas

Somente a partir da segunda metade do século XIX é que se descobriu o neurônio como unidade básica do sistema nervoso. O italiano Camillo Golgi se utilizou da técnica de pigmentação de diferentes seções do cérebro para identificá-las no microscópio, já que a tinta se infiltrava nelas. Usando o que ele mesmo denominou de "tinta negra", Golgi conseguiu, pela primeira vez, a visão de uma célula nervosa completa.

Utilizando a mesma técnica de pigmentação, Santiago Ramón Y Cajal também estudou o neurônio, considerando-o igualmente a uni-dade básica do sistema nervoso. No entanto, ao contrário de Golgi, Ramón Y Cajal achava que cada neurônio era uma unidade à parte, que apenas estava em contato com os demais, sem apresentar conexão física com eles.

As provas fotográficas favorecendo Ramón Y Cajal só poderiam ser apresentadas, e consideradas como verdadeiras, com a posterior descoberta do microscópio eletrônico – que seria bem mais potente do que os microscópios convencionais.

Porém, provas empíricas da existência de lacunas entre neurônios foram fornecidas por Charles Sherrigton. Foi ele quem se utilizou da palavra sinapse para esse suposto espaço entre neurônios. Utilizando-se dos métodos de Whytt, mas com a vantagem dos avanços tecnológicos de sua época, Sherrigton analisou cães que tiveram cirurgicamente o cérebro separado da medula espinhal. Após analisar cães operados, sherrigton observou que o tempo de reação dos reflexos era muito maior que o previsto, com base no que já se sabia acerca da velocidade de transmissão neural. Então, através de observação direta dos dados, deduziu que algo deveria estar retardando os impulsos. Tais observações o levaram a pensar que a sinapse, como um espaço entre um e outro neurônio, tinha que de fato existir.

Com efeito, Sherrigton, antecipou-se à posterior descoberta dos neurotransmissores químicos que atuavam entre os neurônios, através das sinapses. Hoje em dia, já é bem sabido que os neurotransmissores percorrem a sinapse a fim de “promover” ou “inibir” o acionamento dos neurônios para as mais diversas funções diferentes, o que afeta diretamente - e de diversas formas - o comportamento do indivíduo.

Portanto, seguindo Golgi e Ramón Y Cajal, Sherrigton confirmou a definição do neurônio como sendo unidade fundamental do sistema nervoso; porém, acabou indo além, ao descobrir o fato que os neurônios encontram-se separados entre si por sinapses, e mantém inter-relações com outros neurônios através da atividade sináptica dos neurotransmissores.


A Pesquisa de Lashley sobre o Cérebro, Aprendizagem e seus Resultados

Lashley percebeu que as explicações mecânicas ou reflexas, observadas por Watson e Pavlov, não captavam a complexidade do processo por que passavam os animais para solucionar os problemas que lhes permitiria sobreviver.

Os procedimentos de Lashley se inseriram na tradição do filósofo Flourens (inimigo da Frenologia), que observou os efeitos da destruição gradativa do córtex cerebral no comportamento de ratos. Para isso, ele se utilizou de labirintos com graus de dificuldades diferentes. Lashley observou a existência de uma forte correlação entre a complexidade da tarefa (cruzar o labirinto) e o grau de lesão cortical: para a execução de tarefas simples, o grau de lesão tinha pouco efeito; ao passo que, para tarefas mais difíceis, o dese mpenho estava diretamente relacionado com o grau da destruição (ou lesão).

Com base nos seus estudos, Lashley postulou conceitos muito parecidos com os postulados, um século antes, por Flourens: os princípios da “Equipotência” e “Lei da ação de massa”. O primeiro é um argumento contra a própria Frenologia, ou seja, contra a localização cerebral da função, que seria a capacidade de qualquer parte de uma área funcional de realizar um comportamento ou função particular. O segundo diz que a compreensão do desempenho de toda uma função complexa pode ser reduzida em função da extensão da lesão cerebral causada.

Com essas conclusões, sedimentadas em conceitos, podemos concluir que o processo da aprendizagem parece não estar localizado em nenhuma área específica do córtex cerebral, mas sua eficiência é proporcional ao volume da destruição cortical.
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Trabalho elaborado para a Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro em 2009.1.


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