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OS MOTIVOS OCULTOS DO DESESPERO
Por Jorge Angel Livraga (Filósofo e fundador da Associação Cultural Nova Acrópole).


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OS MOTIVOS OCULTOS DO DESESPERO

Veremos neste artigo alguns aspectos sobre este tema que é inesgotável por si só, pois é certo que cada um de nós possui dentro de si uma pergunta e um rascunho da resposta a respeito desta questão. Todos nós já nos perguntamos alguma vez o que é o desespero e por que existem pessoas desesperadas.

Primeiramente, voltemos o olhar para o passado, há aproximadamente trinta e dois séculos. Em uma parte da Ásia Menor chamada Álbion, hoje a Turquia, que logo conheceríamo como Tróia, existiu uma grande cidade. Nesta grande cidade existiam grandes homens que foram atacados por homens também valorosos. Aconteceu uma batalha, um confronto, e ocorreram saques e incêndios. Alguns dizem que Tróia foi tomada mediante a argúcia de um cavalo de madeira, que Ulisses teria idealizado, e graças ao qual os guerreiros inimigos puderam entrar na cidade e derrubar os muros.

Existem algumas teorias mais modernas que nos falam de um terremoto que teria derrubado os muros da cidade de Tróia, e costuma se falar do cavalo como sendo um dos símbolos de Poseidon - protetor dos gregos e de seus mares.

E é aqui que temos que voltar os olhos pafra o passado, para observar como esta cinrcunstância, a queda de uma cidade, por mais importante que seja, acendeu a imaginação do povo, não somente nos que triunfaram, mas também nos que foram derrotados. Muitos séculos depois, os romanos sentiriam-se orgulhosos ao pensar que o próprio princípe Enéas teria colaborado na fundação de sua cidade. Desta forma, tanto os vencedores quanto os vencidos usaram sua imaginação; viveram intensamente estes acontecimentos e, havendo existido ou não o cavalo de madeira, estes homens ficaram impregnados pelo fato. Falaram do mesmo, reproduziram-no em pinturas, em estátuas... E,
séculos mais tarde, surgiu esta grande compilação feita por Homero que conhecemos hoje
como "A Ilíada" e "A Odisséia". O certo é que estes homens estavam em um estado
receptivo e sentiam intensamente aquilo que lhes havia tocado o viver.

Voltemos agora ao presente, do qual praticamente todos nós temos sido testemunhas. Lembremo-nos de algo que aconteceu há uma dezena de anos: a chegada do homem à Lua. Algo verdadeiramente importante. Durante séculos, escritores, poetas, cientistas, etc, sonharam com o dia em que o homem pudesse chegar â Lua. Os poetas, falando do impossível, diziam: "isto só o faremos quando chegarmos à Lua"; os namorados costumavam fazer brincadeiras dizendo: "Dá-me a Lua".

Um dia, por fim, um homem pisou a Lua. Onde estão as poesias? Onde estão as esculturas?Onde estão as obras que eternizaram o acontecimento, e nos farão lembrar realmente deste acontecimento único na história, algo esperado desde o início dos tempos e sonhado nas cavernas quando pintavam-se os mamutes? Onde estão as provas que nos demonstrem que vivenciamos a a chegada do homem à Lua? Praticamente em lugar algum. Passado o primeiro impacto, o primiro instante, no qual víamos nos anúncios dos jornais os acontecimentos e as primeiras fotografias das pegadas no pouso lunar; não restou praticamente nada...

Há pouco tempo, estava no museu de ciências da cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, observando detidamente um pedaço de pedra lunar. Ao meu redor havia uma grande quantidade de crianças. Eu era o único homem adulto que estava vendo a pedra lunar. Para os olhos alheios eu devia estar fazendo papel de bobo e é provável que estivessem pensando: "Pobrezinho, vê-se que é estrangeiro, deve ter alma de criança para gostar de ver a pedra lunar". Mas eu estava vendo uma parte da lua! É o que tínhamos sonhado desde criança. Era o que tinha sonhado nossos pais e nossos avós quando liam Júlio Verne!

O que acontece? De onde vem esta insensibilidade? De onde vem esta constante propaganda no sentido de que ninguém registre o que está vivendo, de que ninguém sinta o que está acontecendo? De onde vem esta robotização que o mundo materialista está imprimindo em nós?

Hoje, se um homem diz, por exemplo, que uma estátua é bela, e o diz em público, as pessoas riem, zombam dele, olham-no com estranha curiosidade.

Quando em Paris, vejo, pela centésima vez, a Vitória de Samotracia, imensa escultura, e com os olhos entreabertos, pareço ouvir os remadores e as vozes daqueles aventureiros que saíam ao mar sem saber nem sequer a que porto chegariam, mas somente com o espírito de aventura, de ir mais além... Advirto-os de que as pessoas olham-me estranhamente. Não. É preciso passar rapidamente com uma máquina fotográfica, tirar a foto e sair correndo. É preciso correr muito.

Também observei este fato na América, em Teotihuacán, onde os turistas praticamente brigam para “pisotear” a Pirâmide do Sol. Digo isso porque, na verdade, ninguém a vê; simplesmente “pisoteiam-na”. Sobem nela e, uma vez lá em cima, descem rapidamente dizendo: “estive na Pirâmide do Sol”.

O que é esta forma de pisotear as coisas? O que é esta falta de imaginação? O que é esta vergonha? Hoje temos vergonha do riso e do pranto. Somente os bêbados ou as pessoas muito especiais não se envergonham de suas lágrimas. Hoje, se alguém tem lágrimas nos olhos ao escutar uma música, pensam dele: “Pobre homem, como bebeu!” É quase inconcebível que alguém possa chorar de emoção diante de uma obra artística, diante de algo espiritual.

O DESESPERO

Hoje o homem está mergulhado no desespero. O estado de desespero é um estado onde não há mais esperança; é um estado no qual ao homem não apenas lhe faltam as coisas, mas quando não há esperanças de consegui-las. É quando as coisas que se têm não lhe servem.

Há alguns dias estive em Bruxelas e um grupo de jovens, sabendo que eu havia chegado nesta cidade, quis falar comigo sobre um problema que tinham. No dia anterior, uma de suas companheiras de classe, uma moça de 23 anos, muito agradável, de pais ricos e de boa saúde, havia tomado um frasco de barbitúricos e se matado. Eles perguntavam: “professor, por que ela se matou?”. Como não conhecia a moça, tratei, então, de perguntar-lhes detalhes sobre ela: se teria brigado com o namorado, tido problemas na universidade, problemas de dinheiro, se a teriam visto drogar-se etc... Todas as perguntas que nos vêm à mente nestas situações. Pois nenhuma destas coisas havia acontecido. E, enfim, cheguei a uma conclusão terrível: esta moça matou-se de tédio, de desgosto. Tinha tudo: carro, casa, admiradores, tudo. Matou-se de tédio. Matou-se por causa desta ignorância na qual todos nós, homens do século XX, estaremos imersos.

A IGNORÂNCIA

Hoje, conhecemos a distância que existe entre a Terra e a Lua. Hoje, conseguimos ver os microscópicos seres que andam pela nossa pele e que, a olho nu, não podem ser vistos. No entanto, ignoramos coisas fundamentais, coisas que, apesar da nossa ignorância, necessitamos ancestralmente. E quando dizemos que não necessitamos delas, estamos mentindo para nós mesmos. É muito fácil dizer: “Bom, que tudo vá para o inferno, seguirei vivendo e trabalhando...”, mas é mentira. No nosso interior existem perguntas,
existem anseios que seguem nos torturando e que nos provocam princípios de desespero.

Existem coisas que não sabemos, que não sentimos, e que vão se refletindo nesta grande crise que sofre nossa cultura e nossa civilização. A maioria dos homens precisa, por exemplo, de um conhecimento que permita relacionar as coisas no Universo. E ao não ter conhecimentos que permitam essa relação, os astros, os átomos, as estátuas e até as paredes tornam-se inimigos. Não sabemos para que as coisas existem. Quem nos ajuda? Quem nos diz algo sobre de onde viemos e para onde vamos? Quem nos explica? Muito poucas pessoas.

Praticamente ninguém. Além disso, as igrejas que estavam voltadas para fins espirituais, hoje, em grande parte estão dedicadas a falar sobre fins sociais e econômicos. Sei que é necessário enfrentar as crises sociais e econômicas, mas também precisamos de um lugar para podermos orar para um Deus desconhecido.

Necessitamos de um lugar onde possamos conversar com alguém sobre o que nos passa na alma e não somente que estamos de estômago vazio.Há uma grande necessidade de saber de onde viemos e para onde vamos, se é que vamos para alguma parte. Isto muda toda a visão cósmica da nossa vida. Pois se pensamos que não vamos a parte alguma, se não existe bem, se não há mal, se não há recompensa, se não há castigo, senão há nada, então dá na mesma viver de qualquer maneira. E se não venho de parte alguma, então, que importância tenho? E que importância tem meus pais ou minha família? Que importância tem qualquer relação humana?

Obviamente, para cortar as raízes desta árvore do desespero, é necessário conhecermos a nós mesmos, saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Também precisamos conhecer as leis universais da natureza; conhecer, por exemplo, a lei de causa e efeito, chamada no Oriente de Karma; saber que todas as coisas são causas das coisas que as seguem, e que são efeitos do que aconteceu anteriormente. Assim, nada neste universo seria casual, tudo estaria relacionado, tudo teria uma razão de ser.


NÃO HÁ O ACASO

Se pudéssemos entender, e não somente entender, mas viver profundamente. Se pudéssemos sentir que realmente tudo está encadeado, que existem causas e que existem efeitos, saberíamos algo sobre nós mesmos. Compreenderíamos por que algumas vezes nos ocorrem determinadas coisas e às vezes outras. O estudo da história nos permitiria seguir o desenvolvimento das nações, o ciclo das civilizações com seus distintos momentos de apogeu e decadência.

Esta lei de causa e efeito é fundamental. Logicamente está unida a outro conhecimento de que falamos antes, porque se não reconhecemos que existimos antes, de que lei de causa e efeito poderíamos falar? Mas se chegássemos a conceber por um instante que existimos desde o início dos tempos e que vamos seguir existindo, veríamos que o que nos acontece agora é como um fruto daquilo que pode nos ter acontecido antes, e que hoje mesmo estamos plantando sementes de ação para aquilo que nos acontecerá depois.

Há algum tempo, falando sobre o tema da reencarnação, citei experimentos atuais que estão fazendo alguns psiquiatras em doentes que tinham uma série de dificuldades psicológicas de origem desconhecida. Tais pessoas somente puderam curar-se quando regressaram em estado hipnótico até possíveis vidas passadas. Isto é verdade? É mentira? É simplesmente um psicodrama? Estes pacientes encontram constatações em forma de datas, lugares, palavras, mas, e o que é mais importante, constataram que todos levamos um importante mundo interior; que levamos um universo que, sem dúvida, está em relação
como o mundo exterior.

Àquele que gosta de escrever, não aconteceu alguma vez que, às quatro ou cinco da manhã, lhe ocorresse uma idéia, um verso, ou u tema para uma conferência, e que se não escrevesse naquele momento perderia-o? Se esse tema ou esse poema que ”vêm” fossem nossos, se fossem simplesmente excreções do nosso ser biológico, poderíamos repeti-los.

Por exemplo, posso limpar meu nariz durante a noite ou pela manhã. Não há nenhum problema em relação a isso; é voluntário. Mas esses versos, essas músicas, estas estranhas vozes que nos falam de coisas desconhecidas, de onde vêm? Talvez venham de outra parte, de alguma dimensão ou mundo onde uma parte especial do nosso ser tem a possibilidade de captar realidades que nós, aqui, metidos nesta casca de carne, não temos a capacidade de captar.

A perda do contato com este mundo maravilhoso, mundo superior mágico, é o que cria em nós o estado de desespero interior. É a sensação de não ter feito no mundo o que se queria fazer; é a sensação de vazio dentro do coração. Trata-se aparentemente de um ganhador, mas dentro de si, há algo que falta, que não está pleno. Há desespero, ou seja, não há esperança, porque não se encontra um motivo para sua própria vida, um porquê mais além da monotonia de todos os dias.


A REVOLUÇÃO INTERIOR

Seguimos vivendo todos os dias em uma espécie de inércia. Comemos, dormimos, movemos-nos, vamos, voltamos... Mas isso não basta para suprir a necessidade interior. Para isso faz falta uma revolução interior, uma revolução espiritual, uma “re-evolução”, um regresso ao ponto de partida.

Todos temos um ponto de partida. Todos temos um instinto a respeito de um ponto de partida mais além de nossa própria vida física; um instinto que nos avisa quando vai ocorrer algo de bom ou ruim. Às vezes nos estremecemos ao pensar em uma pessoa, e logo comprovamos que naquele momento essa pessoa teve um grande sofrimento. Às vezes nos levantamos com a certeza de que tudo neste dia vai dar errado e outras vezes temos a sensação de que tudo vai dar certo. Temos capacidade de entrar em contato com este mundo invisível que nos rodeia, mas necessitamos desenvolver nossas potencialidades interiores
de esperança. Em outras palavras, necessitamos desenvolver nosso mundo espiritual; um mundo que não se quebra com as mãos; um mundo que não se pode comprar com dinheiro; um mundo que não responde a ameaças; um mundo que está além de todas as circunstâncias da vida. E todos nós precisamos desse mundo, ainda que tenhamos nos esquecido dele.

É mais necessária a esperança que o dinheiro. Os homens podem viver com pouco ou praticamente nenhum dinheiro, mas não pode viver se esperanças. Todos temos, não somente a necessidade, mas o direito a uma pequena porção de glória, a um pequeno pedaço de história, de algo transcendente, pelo qual nos reconheçam, seja em público ou intimamente. Isso também está desgastado. No passado, as famílias expunham os quadros dos avôs, os netos admiravam aquele que fez tal coisa ou outra; o que viajou a tal parte ou veio de outra; os netos sonhavam com seus avôs.

Hoje quando morrem nossos avôs, ficamos com alguma foto deles? Muitas vezes rasgamos suas fotografias. Para que as queremos se nossos avôs já morreram?

Esta falta de um pouco de glória, de relação espiritual, vai esgotando-nos, vai deixando-nos pouco a pouco duros e malvados, porque sentimo-nos muito sós.

E ainda que estejamos no meio de uma multidão, que todas as manhãs leiamos os jornais e que nos informemos sobre tudo que se passa na China ou na Índia, sentir-nos-emos sós, porque desconhecemos o que se encontra dentro de nós. E não conseguimos tampouco comover os que nos cercam para que nos dêem uma pequena frase de carinho, ou algo que não seja simplesmente material.

Se vocês amam seus filhos, seus amigos, as pessoas que estão com vocês, não tenham medo de demonstra-lo. O medo de demonstrar nosso amor é o que nos tirou o direito à esperança. A esperança voou para longe de nós, pois de alguma forma ficamos paralíticos, duros, sem poder demonstrara nossas emoções. Essas são mutilações da nossa alma. Nossa alma está de tal modo mutilada nas suas funções de esperança e espiritualidade que fazemos as coisas de maneira automática. Precisamos então de um renascer interior que nos coloque em contato com o mundo e com nós mesmos. Precisamos frear um pouco este caminho de artifícios, de “moedas”.

Aquilo que está na moda é o que se usa. Se está na moda, por exemplo, uma determinada ideologia política, se está na moda acreditar ou não em Deus, se está na moda pensar de uma certa maneira, se há um poeta que está na moda... a isto nos apegamos e por isto nos deixamos levar como se fôssemos pedaços de ferro ou de rocha, sem levar em conta nosso ser interior.

Isto provoca, obviamente, um estado de desespero. Precisamos retomar o sentido da esperança.

Por isso quando falamos da filosofia da Acrópole ( acropolis: cidade alta), falamos do fato de que muitos de nós estamos cansamos de ser pedras que rodam no vazio, estamos reclamando nosso direito ao céu, nosso direito á paz. Estamos reclamando à voz e, em nome de todos, o direito de viver como seres
humanos.

Em um mundo que está cada vez mais contaminado, queremos que a esperança ande diante de nós como se fosse uma tocha, iluminando nosso caminho. Queremos nos relacionar com nós mesmos, com nossos antepassados, com as pessoas que virão.

Queremos de alguma forma ser parte deste momento histórico e também realizar a história futura. Os homens, as mulheres, quando realmente são homens e mulheres, não se conformam em ler a história, querem fazê-la, ainda que em sua pequena medida. Querem vivê-la.

Devemos reagir contra este mundo onde as coisas do espírito foram substituídas pela matéria, um mundo onde mesmo aqueles que querem e têm necessidade de espiritualidade encontram-se empurrados como gado contra este muro espinhoso que é o ódio de relações humanas atuais.

Felizes os que choram diante de uma poesia; felizes aqueles que mudam seus rostos quando ouvem uma música que pode elevá-los. Felizes aqueles que podem gesticular e abraçar um amigo no meio da rua. Felizes aqueles, os vivos, os que ainda estão realmente vivos, e de cuja semente de esperança surgirá todo um mundo de esperança. Um mundo novo, mas melhor.

Jorge Angel Livraga
Filósofo e fundador da "Associação Cultural Nova Acrópole".


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Page Updated Sun May 3, 2009 10:29pm EDT