MEDUSA - MITO E ESTADOS DEPRESSIVOS
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PARTE I
A Medusa, terrível ser mitológico, é considerada pelos gregos uma das divindades primordiais pertencente à geração pré-olímpica. Só depois é tida como vítima da vingança de uma deusa. Uma das três górgonas, é a única mortal. Três irmãs monstruosas que possuíam cabeça com cabelos em forma de serpentes venenosas, presas de javali e asas de ouro. Seu olhar transformava em pedra aqueles que a fitavam. Como suas outras irmãs, Medusa representava as perversões. Euríale simbolizava o instinto sexual pervertido; Éstano, a perversão social; e finalmente a Medusa que, espiritualmente falando, representa a pulsão evolutiva - a vontade de crescer e evoluir - estagnada.
Medusa também é o símbolo da mulher rejeitada e, por sua rejeição, tornou-se incapaz de amar e ser amada, odiando os homens e associando-os à figura daquele que permanentemente as viola e as abandona, pelo fato de ter deixado de ser mulher bela, para se transformar em monstro - por culpa de um homem e de uma deusa.
Seus filhos não são humanos nem deuses... Górgona apavorante e terrível. O mito de Medusa tem várias versões, mas os pontos principais refletem estas características acima. Assim como Midas, ela não pode facilitar a proximidade: um transformava tudo em ouro em apenas um toque; ela é ainda mais solitária e trágica, não podendo sequer olhar, pois tudo o que olha vira pedra. Medusa tira a vida e todo o movimento com um simples olhar. Também não pode ser vista de frente, não se pode ter idéia de como ela é sem ficar paralisado, morrer...
Diz o mito que Medusa fora, outrora, uma belíssima donzela, orgulhosa de sua beleza, principalmente de seus cabelos, e, por isto, resolveu disputar o amor de Zeus com Minerva. Esta, enraivecida, transformou-a em um monstro, com cabelos de serpente. Outra versão diz que Zeus a teria seqüestrado e violado o interior do templo de Minerva, e esta, mesmo sabendo que Zeus a abandonara, não perdoou tal ofensa, e o fim é o mesmo.
Medusa é morta por Perseu que também foi rejeitado, trancado numa arca, juntamente com sua mãe (Danae), e atirado ao mar, de onde foi resgatado por um pescador que os levou ao Rei Polidectes - que o criou com sabedoria e bondade.
Quando Perseu ficou homem, Polidectes enviou-o para a trágica missão de destruir Medusa. Para isto, receberia ajuda dos deuses. Usando sandálias aladas, pôde pairar sobre as terríveis górgonas que dormiam. Usando um escudo mágico de metal polido, refletiu a imagem de Medusa como num espelho, decaptando-a com a espada de Hermes.
Do pescoço ensangüentado da Medusa, saíram dois seres que foram gerados da união com Poseidon - deus dos mares: o gigante Crisaor e o cavalo Pégaso. O sangue que escorreu da Medusa foi recolhido por Perseu. Da veia esquerda saía um poderoso veneno; da veia direita, um remédio suficientemente poderoso para ressuscitar os mortos! Paradoxalmente, ou melhor, ironicamente, trazia dentro de si o remédio da vida, mas preferiu utilizar, sempre, o veneno da morte...
"Três irmãs, três monstros, a cabeça aureolada de serpentes venenosas, presas de javalis, mãos de bronze e asas de ouro: Medusa, Ésteno e Euríale. São símbolos do inimigo que todo homem precisa combater. As deformações monstruosas da Psiqué, segundo Chevalier e Gheebrant (Dictionnaire des Symboles, Paris Robert Laffont, Júpiter, 1982) se devem às forças pervertidas das três pulsões: sociabilidade, sexualidade, espiritualidade". (Brandão, ed. Vozes 1987).
É perfeitamente observável em pacientes em terapia alguns processos que remetem ao mito de Medusa. Estes relatam um sofrimento imenso devido a dificuldades em perceber a própria imagem. Quem sou eu? A grande pergunta para a qual toda a humanidade busca respostas. Para estas pessoas, como se tivessem uma imagem invertida refletida no espelho, a pergunta seria: o que eu não sou?
Incapazes de mostrar uma imagem positiva, como os filhos monstros de Medusa, erram pela vida alinhando possibilidades para construir a sua monstruosidade. Estes filhos de Medusa, embora filhos de um deus, herdam da mãe a figura monstruosa a que se viu presa a bela Medusa. A duplicidade da mãe os acompanha.
Pégaso, unido ao homem, é o Centauro, monstro identificado com os instintos animalescos. Mas também é fonte, como o seu nome simboliza ("alado"), da imaginação criadora sublimada e sua elevação. Temos em Pégaso dois sentidos: a fonte e as asas. Um dos símbolos da inspiração poética, representa a fecundidade e a criatividade espiritual. Pégaso talvez represente o lado belo da Medusa, o lado que ficou escondido e que não podia ser visto, pois, como vimos, ela representa a pulsão espiritual estagnada. Pégaso seria, portanto, a espiritualidade em movimento.
Crisaor (irmão de Pégaso) é apenas um monstro, pai de outros monstros: o Gerião de três cabeças e Équidna. Esta última herda da avó um destino trágico: seu corpo metade mulher, de lindas faces e belos olhos, tem, na outra metade, uma enorme serpente malhada, cruel. É a bela mulher de gênio violento, incapaz de amar, devoradora de homens... Uma reedição de Medusa que dará continuação à saga ancestral de odiar os homens e gerar monstros.
Com uma imagem distorcida, com dizíamos anteriormente, estes "filhos de Medusa" não podem ver-se a si mesmos como realmente são e, por isto, sempre se imaginam bem piores, até mesmo do que poderiam ser.
Alguns autores como Melanie Klein e Alexander Lowen falam que a imagem de si se origina do olhar da mãe. A forma como a criança é olhada, é vista, o que ela percebe de rejeição ou aprovação é, desde o início, captado através do olhar da mãe. Portanto, os triste filhos de Medusa não podem vê-la, também não podem ser vistos por ela. Esta mãe de mãos de bronze não pode acariciar, seu olhar paralisa, seus dentes de javali impedem-na de beijar, mas se pudesse ser atingida, de alguma forma, pelo filho, ela se tornaria novamente divina, com asas de ouro, um alvo móvel.
Medusa incorpora para estas personalidades de estrutura depressiva o mito da mãe divina, visto pelo seu filho como a "santa mãe". Não gera filhos felizes, apenas trágicos. Não pode ser mulher, é santa. A princípio, assim como Jocasta (Rei Édipo), depositária das paixões do filho, Medusa não o ama, fazendo-o sentir-se culpado pelo seu amor "incestuoso". Como recurso, ele passa a santificá-la para poder continuar amando-a e justificando a sua rejeição como forma de protegê-lo de sua própria torpeza.
Desprovida, como toda santa, de instinto sexual, não pode falar ao seu filho da sexualidade feminina, não pode dizer-lhe o que é uma mulher... Inacessível ao seu filho, também como santa, resta-lhe apenas o monstro. Monstro que é percebido pelo filho, mas que se nega a ser visto como realmente é.
Medusa não olha, não acaricia, não orienta. Apenas paralisa. Não é por acaso que o sentimento de depressão caracteriza-se pela inércia, a perda e a ausência da vitalidade natural. Como se tivessem sido transformados em pedra pelo olhar da mãe, os filhos de Medusa erram pela vida sem espelhos que possam traduzir sua própria imagem. São monstros cuja criatividade, afogada na pedra de suas almas, precisa urgentemente ser libertada.
Precisam encontrar um espelho que lhes diga quem são ou pelo menos quem não devem ser...
No trabalho terapêutico de pacientes com depressão, observa-se uma enorme dificuldade em perceber a figura materna. Ela é idealizada a partir de perfis sócio-culturais preestabelecidos que parecem não poder ser questionados. Frases como: "qual mãe não ama seus filhos?"; ou: "toda mãe é uma santa.", traduzem a situação que impede a visão da realidade.
São pessoas desprovidas de afeto, mas com uma enorme necessidade de carinho, mas que, no entanto, não suportam proximidade, uma vez que não confiam em ninguém, pois não acreditam que possam ser amados. Sentem-se monstros. Alguns, mais adiante no processo, chegam a perceber nitidamente que não foram amados, mas, como se esquivando de perceber a profundidade da própria dor, negam afirmando que tudo isto é normal, diante de sua torpeza.
Falam de mães ocupadas, falam de vaidosas e ressentidas da perda da beleza devido ao nascimento do filho. Mas estas referências são bastante vagas e superficiais.
Quando conseguem se aproximar da visão real dessa mãe de garras e mãos de bronze, os sintomas se multiplicam, aumenta a depressão, e, com esta, a paralisia, a inércia... Podem passar vários dias deitados, sem trabalhar ou realizar um mínimo de esforço. Ver Medusa, entrar em contato direto com o seu olhar, é petrificar-se. Muitos desenvolvem sintomas de dor de cabeça, medos de doenças fatais como o câncer, AIDS (doenças ligadas à amputação, à decapitação, ao sangue, à sexualidade e sintomas de castração).
As fantasias de autopunição se multiplicam, relatam possibilidades de acidentes de automóvel ou com armas de fogo. Têm fantasias de traição com amigos ou companheiras. São pessoas trágicas. Todos relatam uma completa ausência de alegria, mesmo quando estão em ambientes alegres. Uma profunda inveja do prazer do outro os assola. Muitos perseguem a fantasia de resolver a "falta" com postos de poder e dinheiro, o que só faz aumentar a dor, pois o poder que tanto ansiaram, ou o dinheiro que tudo resolveria, aumentam a profundidade do abismo: ter "tudo" o que julgava-se necessário para ser feliz e, mesmo assim, continuar a se sentir um "nada" é uma das experiência existenciais mais traumáticas para qualquer ser humano. O abismo se abre cada vez mais como as entranhas da mãe monstruosa. Restam-lhe apenas fantasias suicidas. É preferível morrer a sentir-se um monstro.
Muitos concretizam, de fato, esta fantasia, como uma última tentativa de atingir a Medusa.
Mas ela nada sentirá. Seu ódio pelo homem que a "violou" transmite-se ao filho que gerou. Sua pior inimiga, Minerva - deusa da inteligência -, por sua vez, deixa-lhe como legado o ódio às mulheres e, por isto, é incapaz de dizer ao filho como lidar com elas, como gerar com elas novos filhos, amados, sadios. Sua descendência, embora não precise
ser, deverá ser de monstros que, por sua vez, gerará outros monstros.
Fala-se, portanto, da hereditariedade da depressão, porém, penso que, se houver alguma, deve ser transmitida muito mais por gestos e atitudes, em combinação com o ambiente trágico e desprovido de prazer, em que estas novas crianças se desenvolverão. Os filhos de Medusa não podem ter mulheres amorosas, posto que isto a denunciaria. Raramente, quando encontram estas mulheres, não podem confiar nelas, abortando, assim, a possibilidade de obter o amor que os revitalizaria.
Mas, apesar das dificuldades e das fantasias autopunitivas, Medusa pode ser vista. Através do espelho do terapeuta (e do mesmo como espelho), a figura de Medusa pode ser vista como realmente é. Se a relação terapêutica se estabelece de forma transferencial, amorosa, confiante, o espelho refletirá imagem de Medusa, como ela é. Incapaz de amar, cruel e terrível, górgona, apavorante. Como resultado, o filho descobrirá que o monstro é ela, não ele. Da morte (simbólica) dela resultará a sua vida e, como Pégaso, ele ganhará os céus, liberto, simbolizando a vitória da inteligência e sua união com a espiritualidade, recuperando a sensibilidade que sempre existiu - naquele que se julgava um verdadeiro monstro. Como Pégaso, se não se calcar em seu aspecto de humano comum, se não concentrar-se em revoltas descabidas e em vinganças inúteis, poderá compreender a tragédia de Medusa e perdoá-la. Não se transformará no monstro Centauro, identificado com o instinto animalesco e a sexualidade desregrada.
Caso opte por incorporar o Centauro, errará pela vida sem pertencer a ninguém. Homem de muitas mulheres, mas sem nenhuma. Incapaz de amar, como ela, será um monstro eternamente preso à sua mãe monstruosa. Pégaso, por outro lado, será a fonte da mais pura elevação, da criatividade, da fidelidade... Não é por acaso que Pégaso simboliza a poesia.
As filhas de Medusa também apresentam, como ela, a impossibilidade de serem amadas. São mulheres tristes de trágica figura, mesmo quando belas. Condenadas a serem eternas crianças, presas às entranhas da mãe, não podem deixar de ser filhas-monstro, a não ser para serem mães-monstro. Filhas da violação e do abandono (é assim que Medusa transmite à elas a sua relação com os homens), são mulheres-meninas, incapazes de perceber o
homem a não ser como um brinquedo, ou como fonte de sofrimento. Unem-se,
quase sempre, a homens cruéis que possam justificar a idéia da mãe da impossibilidade de ser feliz com um homem. Quando raramente encontram o amor, destroem-no, dizimando o homem "amado", como faz no mito de Équidna, legítima herdeira de Medusa. Mulheres de amores infelizes, herdam de Medusa as garras, as mãos de bronze, e as asas de ouro. Vítimas de novos abandonos, reforçam, em cada experiência infeliz (que colecionam), a idéia da mãe. Também possuem o olhar terrível. Das uniões infelizes, geram filhos infelizes que carregam presos a si mesmas, não por amor, mas pelo terror que podem gerar. São novas "Medusas", com força renovada. Se pela procura puderem chegar ao espelho, podem ser deusas, podem ser Pégasos, ou até mesmo Poesia - uma das musas; caso contrário, seguirão seus destinos de mulheres-crianças, gerando filhos que não podem amar e que, no máximo, lhes servem de brinquedo para suas brincadeiras cruéis de paralisar e aterrorizar pessoas. Seguem a saga de Medusa: mulher que se torna monstro, pelo descuido de homem, pela crueldade de uma deusa.
Mas e as mulheres Medusas? O que lhes resta? O próprio mito nos mostra...
Perseu, filho de Danae, mãe amorosa que segue seu filho no destino que lhes foi dado pelo pai terrível que, por sua vez, ouviu de um mago que seria assassinado pelo neto.
Trancados em uma arca e atirados ao mar, são salvos por Possêidon que os encaminha a uma praia tranqüila, onde são recolhidos por um pescador e levados ao rei Polidectis, que o educa amorosamente, assim como a um filho. Perseu é filho de mãe amorosa, que tudo perde para seguir o seu filho; mulher que, mesmo abandonada por um homem, não transforma tal abandono em ódio generalizado à masculinidade.
Perseu também: seu abandono pelo avô receoso, e por um pai incapaz de salvá-lo é, no entanto, criado por um pai adotivo amoroso. Perseu e Danae, o oposto de Medusa. Não permitiram que seu sofrimento se transformasse em ódio à humanidade. Foram alcançados e salvos pelo amor humano. Ao contrário de Medusa, da qual ninguém pode se aproximar. Somente Perseu poderia, portanto, destruir Medusa. Ele pode ser visto exatamente como o seu contrário no espelho: ela mulher, ele homem; ela permanentemente ressentida, ele sempre disposto a perdoar; ela sem possibilidade de resgate, ele salvo pelo amor da
mãe que o acompanha, pelo cuidado de um deus e pelo amor de um pai-rei.
Em suma: Perseu possui tudo o que faltou a Medusa, que precisa ser vista, através de um espelho, para ser destruída e libertar Pégaso. Medusa precisa ser compreendida além de seu aspecto monstruoso, como mulher criança, frívola, presa à beleza passageira, desafiando permanentemente a grande deusa, a inteligência a quem desafia e a quem odeia. Para, depois de morta, servir à Minerva, mesmo que seja como esfinge no seu escudo. Guiado pela inteligência e sabedoria de Minerva, que corrige o seu erro de ter criado
um monstro, o olhar de Medusa agora é útil, tem aplicabilidade, destrói o inimigo. Já não mata mais a quem ama...
Se a transferência não se realiza, se a relação terapêutica não se faz - e disse uma célebre figura que a terapia é uma função de amor -, os filhos de Medusa verão no terapeuta a imagem dela e, certamente, fugirão. Tudo estará perdido, o amor não poderá realizar o seu resgate, e isto fará com que Medusa permaneça eternamente, destruindo e paralisando, até que destrua, por completo, a própria pessoa ou sua descendência.
Fim da primeira parte deste trabalho...
PARA ACESSAR A SEGUNDA PARTE DO TRABALHO, ENTRE EM:
http://maxpages.com/elias/Medusa_e_Estados_DepressivosII
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