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CONTINUAÇÃO - MITO DA MEDUSA E ESTADOS DEPRESSIVOS
PARTE II


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PARTE II

Ainda sob o enfoque do mito da Medusa, penso ser possível fazer considerações sobre a forma como se opera, na mãe, e, mais especificamente, nesta mãe desencadeante de uma estrutura depressiva - esta mãe incapaz de ver o seu filho, nem de ser vista por ele do ponto de vista simbólico – a escolha daquele que será eleito o filho rejeitado.

Penso que Medusa (chamaremos assim esta mãe) não se interessa muito por seus filhos deuses, ou seja, aqueles com qualidades excepcionais, pois prefere mais os que podem ser semelhantes à ela no seu aspecto monstro. Mas o que parece mais relevante é permitir-se pensar que, de alguma forma, ela é capaz de reconhecê-los e selecioná-los logo ao nascerem. Ou seria mesmo antes?

De alguma forma, ela pode reconhecer no filho as qualidades divinas e, por isto, deseja apropriar-se delas, tentando encontrar um meio de colocar esse pequeno deus a seu serviço.

Medusa conhece Pégaso, ele está dentro dela mesmo antes mesmo de nascer: precisa apenas libertar-se para ganhar os céus com suas asas maravilhosas. Ele é a poesia, em sua sensibilidade, é liberdade em sua ousadia de voar e, o pior, é que ele, de alguma forma, representa a inteligência, a mente brilhante que lhe faz lembrar Minerva, sua maior opositora.

Pode-se dizer que os depressivos são quase sempre muito inteligentes. Afinal, segundo Doin (1985: “(...) eles aprendem a ler o rosto da mãe como os meteorologistas aprendem a ver o tempo”. De certa forma, pode-se dizer que, mesmo não a vendo, e não sendo visto por ela, ela o reconhece e, assim sendo, também pode ser reconhecida por ele. É então que se dá o conflito: Medusa tenta seduzi-lo para colocá-lo a seu serviço. Mesmo carente, necessitando do espelho do olhar da mãe, Pégaso resiste, pois sabe que submeter-se é a escravidão e a monstruosidade, é perder a liberdade e a sensibilidade, é não poder mais voar e abdicar, de uma vez por todas, de sua inteligência. É tornar-se um deus a serviço de um monstro, ou seja, monstro também.

Medusa, mais uma vez, sente-se rejeitada, não podendo compreender que esse ser divino por ela gerado não aceite ser completamente seu. Deseja suas qualidades, pois como monstro, há muito esqueceu a sua condição de deusa. Deseja-o a qualquer custo.

Por sua vez, Pégaso procura fugir desse corpo monstruoso que o aprisiona, precisa nascer, realizar plenamente suas potencialidades. Mas como fugir daquela que tanto insiste em guardá-lo, a sete chaves, dentro de si mesma?

Para Ragland-Sullivan (1986): “(...) entre os 6 e 18 meses de idade, o infante se identifica com uma imagem corporal de ‘self’ unificada que, mais ou menos, corresponde a uma identificação com o corpo da mãe. A criança também se identifica, gradativamente, com o objeto de desejo da mãe. Desejando ser tudo para ela, o filho (ou filha) quer ser o significante do desejo dela. (...) Mas, uma vez que a criança não sabe ao certo qual é realmente o desejo da mãe, o primeiro significado construído pela criança, o único que é real e concreto, é o seu desejo de agradar e fundir-se com a mãe. Por isto, tanto os meninos quanto as meninas desistem bem depressa de ser, por identificação, o objeto que a mãe deseja, assim que percebem que ela permanecerá insatisfeita, apesar dos esforços
que fizeram no sentido de ser o que ela quer”. – e é extremamente patológico quando a criança, por algum motivo, não consegue vencer tal etapa, continuando, mesmo quando adulto, a agradar permanentemente seus pais.

Ora, fundir-se com Medusa é ser monstro e escravo de sua vontade, vontade que nunca é satisfeita, pois parece ser o destino da Medusa: a eterna insatisfação e a morte. Fundir-se a ela é perder a individualidade e errar pela vida a fim de cumprir um destino cruel. Pégaso parece reconhecer isto e, naturalmente, foge.

Para Winnincott (1965): “o ‘Eu sou’ – a unificação dos núcleos do ego – só pode ter lugar no meio propiciado pela mãe suficientemente boa (...) porque ela tem a criança em sua mente como um pessoa inteira”, ou seja, um indivíduo diferente, independente e separado dela. Diz ainda que: “o precursor do espelho é o olhar da mãe”.

Para Doin, o que o bebê vê quando ele olha para o rosto da mãe é ele mesmo refletido nesse olhar. Como poderia ser diferente? Se essa mãe não puder ou quiser refleti-lo, é bem mais provável que o caos se instale. Ela pode também refletir um bebê falecido, ou mesmo seu estado de espírito, ou suas defesas psíquicas. E, assim, esta relação mãe-bebê não se faz, pois o bebê não se vê no olhar da mãe e, por sua vez, não a reflete em sua maternidade, desistindo desse olhar, a não ser para “prever o tempo”, a fim de poder se defender.

Penso que daí se origina a capacidade que os depressivos possuem de perceber e analisar tudo o que os cerca, de maneira obsessiva, minuciosa e detalhada.

A partir daí, a capacidade criativa se atrofia e, embora crie (até por defesa) uma percepção detalhada do mundo externo, não consegue se perceber como realmente é (falta-lhe espelho) e, por sua vez, passa a não confiar mais nas próprias percepções.

Dois caminhos, portanto, podem ser traçados:

1. Pégaso aceita a sedução e transforma-se no Centauro (monstro semelhante à mãe); passa a ser o filho seduzido, entregue à loucura de sua mãe-monstro, tentando sempre satisfazê-la, pois torna-se incapaz de aperceber-se de que sua mãe entregou-lhe uma tarefa impossível: não por incapacidade dele para realizá-la, mas pela insaciabilidade dela que o impede de cumpri-la. Em sua constante busca, combinada com a dependência da mãe, pouco lhe resta senão buscar ser uma pessoa, um indivíduo autônomo, um ser humano integrado.

2. No outro caminho, Pégaso descobre rapidamente que a mãe não lhe serve de espelho, que ela não pode oferecer-lhe de volta uma imagem para que ele possa construir-se como pessoa. Diz Doin (1985): “a percepção (de si mesmo) toma o lugar da apercepção, a percepção toma o lugar do que poderia ter sido o começo de uma troca significativa com o mundo, o começo de um processo em duas direções – em que o auto-enriquecimento se alterna com a descoberta de significado do mundo das coisas vistas”.

Enlouquecido, sem poder de escolha, dependente de sua mãe monstruosa, resta a Pégaso a culpa de aceitar a sedução e o destino de passar a vida orbitando ao redor de Medusa, rebelando-se contra a sua tirania de vez em quando, e, à medida em que se rebela, deprime-se. Torna-se então a criança “boa e obediente”.

Aprende a falar baixo, a não ser incômodo, a movimentar-se apenas o suficiente, desiste do barulho e da sonoridade da alegria. Pégaso passa a ser uma criança solitária, triste, vigilante e extremamente racional.

É bastante comum encontrar crianças quietas, dedicadas aos livros, com poucos movimentos, pois as mães-Medusa não suportam crianças barulhentas, desobedientes e hipercinéticas: seu modelo de criança é o mais próximo ao dos bebês de plástico – que são apenas brinquedos. Muita destas mães contam com orgulho como suas crianças são “educadas”, asseadas, quietas e silenciosas; parecem não dar trabalho algum! Como são comportadas! E deveriam, ainda, acrescentar: infelizes.

Certa vez, uma mãe-Medusa obrigava seu filho, nas festinhas infantis, a ficar permanentemente com as mãos para trás, e não olhar para a mesa de doces, pois não era educado parecer que os desejava – poderia ser interpretado como fome, e sentir fome em presença dos outros não era bonito.

Outra mãe-Medusa tinha uma bela criança inteligente e faladora e sempre advertia ao menino não falar em demasia, principalmente sobre as particularidades familiares, pois, caso contrário, colocaria um ovo cozido em sua boca. Se o fez alguma vez, ninguém sabe, mas pelo seu olhar...

Beliscões furtivos, pequenos tapas, ameaças implícitas, chantagens terríveis, fazem parte da vida “afetiva” destas pobres crianças. Proibidas de movimentarem-se, sorrir, gesticular ou gritar, enfim: de desprenderem a energia que precisam para poderem crescer como crianças felizes. Tornam-se, portanto, imóveis, quase inertes, distímicas.

Não viria daí a imobilidade tão comum nas crises depressivas? O medo de desobedecer que se apodera do depressivo justamente quando ele começa a fazer planos para cuidar de si, ou fazer algo que lhe seja favorável, talvez se relacione com a idéia de “desobediência civil”.

Havia um indivíduo, em processo de análise, cuja a mãe era histérica e, sempre que contrariada, arrumava-se muito bem, pintava o rosto, colocava jóias e dizia que iria se matar no centro da cidade (ou num Shopping-Center), e que a culpa era toda dele por ter sido um menino tão mau. Tal paciente passava, naturalmente, horas e horas angustiado, na calçada da casa esperando a notícia da morte da mãe – que, obviamente, nunca aconteceu...

Inúmeros exemplos podem ser citados, pois parece que existem muito mais mulheres dispostas a serem Medusa do que a desempenhar o papel de Danae. Muito sofrimento existe nestas infâncias perdidas devido a mães cruéis. Muita culpa é colocada onde não deveria estar.

No entanto, parece tão simples reconhecer a crueldade dessas mães. Outro engano! A cultura judaico-cristã em que vivemos não admite a possibilidade de existir uma mãe má. O que apenas reforça a culpa e a dificuldade de reconhecimento da realidade. Reconhecer uma mãe-Medusa é a maior tarefa que se pode propor a alguém. Desempenhar o papel de Perseu - que reconhece e mata a Medusa -, é tarefa para se realizar apenas com a ajuda de deuses, assim como no mito. É preciso encontrar as sandálias aladas, a espada de Hermes e o escudo de Minerva. Simbolicamente, encontrar um Possêidon que os salve, um Polidectes que os ame incondicionalmente e alguém – quem sabe um psicoterapeuta – que
lhes arme como Minerva.

Em nossa cultura não é fácil, pois, reconhecer Medusa em um meio que lhe parece tão favorável, é uma tarefa que implica em culpa e depressão. Falo em reconhecer, apenas confirmar dentro de si mesmo essa mãe cruel, tarefa difícil de ser cumprida, pois, culturalmente, a “mãe cruel” é muito confundida com “mãe zelosa” – a que cuida de seu bebê e realmente lhe serve de espelho. Por isto, imaginar “matá-la”, ou seja, livrar-se do poder que ela exerce, impedi-la de destruir o filho (ou filha) é crime hediondo – mesmo que perpetrado na fantasia, no processo terapêutico. Daí a sensação que determinados pacientes têm de recair logo após terem começado a melhorar, traçando planos para a felicidade. E tentarão muitas vezes, até que não se sintam tão culpados por cuidarem de si mesmos.

Assim, sem saída, essas pobres crianças “de mãos para traz”, com medo de olhar e desejar qualquer coisa que seja, inertes, silenciosas e tímidas, crescem sem uma imagem positiva de si mesmo, sem se reconhecerem e, mesmo quando são reconhecidos pelo outro como pessoas capazes, se tornam adultos tristes, depressivos ou melancólicos: muitos não conseguem sequer compreender o sentido da alegria, de uma festa ou de como se divertir. Deprimidos, isolados, funcionando permanentemente abaixo de suas capacidades e recebendo, sempre, bem menos do que merecem.

Penso que os depressivos são os eleitos que se recusaram a ser seduzidos por Medusa. Uma espécie de “em cima do muro”, sempre no meio termo em todos os aspectos. No entanto, a culpa não lhes permite reconhecer a crueldade da mãe, e, por conta disto, ficam ali, orbitando ao seu redor, alimentando a fantasia de que, um dia, serão amados (ao invés de seduzidos), ou que, de alguma forma, ela vai ser capaz de reconhecê-los se fizerem “algo”(que algo?). Penso que os depressivos são pessoas em permanente disponibilidade. São, geralmente, os “bonzinhos” da estória. Vivem fazendo tudo para todo mundo. Passam a vida cuidando dos outros para não cuidarem de si mesmos, pois entendem que, do contrário, estariam sendo egoístas – e “aprenderam” cedo que egoísmo é prenúncio de maldade. Enfim, nem saem e nem ficam completamente na situação.

Criam, assim, um esquema que poderia ser definido como:
DESEMPENHO > RECONHECIMENTO > FRUSTAÇÃO DO RECONHECIMENTO > CULPA > DEPRESSÃO > FANTASIA DE NOVOS DESEMPENHOS.

Falemos um pouco dos seduzidos. Os filhos seduzidos de Medusa podem ser comparados à massas amorfas, sem pensamentos próprios, sem sentimentos particulares, sem senso de privacidade, sem autonomia. Não fossem a sua infelicidade e atonia, poderiam ser comparados a um feto: preso ao cordão umbilical que o alimenta, participa com a mãe da sua monstruosidade, compartilhando excessivamente de suas idéias. Pérfidos, maldosos, incapazes de elaborações próprias sobre a realidade que os cerca, associam-se a Medusa, Ésteno e Euríale - simbolicamente as perversões sociais, sexuais e espirituais, em
outras palavras: as sociopatias; a sexualidade desenfreada, desregrada e pervertida; e, finalmente, toda espécie de psicopatias. Todos estes fatores levam, naturalmente, ao uso de drogas, ao alcoolismo e ao suicídio. Eis Medusa e suas irmãs. Entregar-se a uma é abrir guarda para todas. Escolher seguir Medusa e a solidão, a loucura e a autodestruição.

Podemos reconhecer Medusa nas mães que conduzem seus filhos loucos de médico em médico, com a desculpa de que querem o melhor para eles, mas que, para o médico que os trata, fica evidente que, quando começam a apresentar sinais de melhora, tais mães sabotam o tratamento: mudam de terapeuta; trocam os remédios por conta própria, quando não esquecem completamente o tratamento.

Ela também pode ser vista na mãe do alcoólatra, que ora briga e reclama, ora vai apanhá-lo nas sarjetas, cuida-o, alimenta-o e briga com a família inteira por causa dele.

Podemos encontrá-la nas enormes filas de presídios, em dias de visita. Nestas situações, mostram suas “asas de ouro”: são mães abnegadas que visitam seus filhos criminosos, conduzem enormes sacolas de alimentos, esperam horas na fila, submetem-se à vergonha das revistas de rotina, muitas vezes humilhantes e desrespeitosas para a condição humana –tudo é possível para essas mães-deusas, agora que provaram (ou transferiram?) sua monstruosidade para os próprios filhos, assumem, de certa forma, a condição de sofredoras que carregam filhos-monstros.

Outros seduzidos, caso não enlouqueçam devido à distorção de sua imagem, desenvolvem o que chamamos de “falsos-selfs” (falsa imagem de si próprio). Incapazes de reconhecer e amar uma mulher incondicionalmente, adquirem o que se pode chamar de “destino da lua”,ou seja, mesmo que a todos encante, não pode ser de ninguém.

Tornam-se homens misóginos que passam sua vida tentando, de várias formas, destruir mulheres, em vários graus - que variam desde o enganar e divertir-se com elas, até o espancar, mutilar e, por fim, fisicamente matá-las. Vivem apenas para criar e destruir ilusões femininas.

Caso mulher, a herdeira de Medusa permanece eternamente uma criança e crescem externamente odiando os homens, permanentemente criando e recriando, dentro de si mesmas, a impossibilidade para a proximidade e o amor humano. Os homens ainda podem se tornar “eunucos”, no sentido simbólico, alijando, dentro de si, qualquer resquício de instinto sexual e, com isso, pensam ter destruído o desejo, mas este os perseguirá – não mais como uma pulsão saudável que incentivaria a sua personalidade, mas como Ésteno que sempre acompanha Medusa. O conjunto dos desejos recalcados será, portanto, a principal causa de sua infelicidade, de seu desequilíbrio, enfim, o que, possivelmente, tenderá a se manifestar em uma espécie de filantropia camuflada, por este ou aquele motivo religioso, criando, muitas vezes, claustros que os distanciam cada vez mais da problemática humana. Eunucos de Deus. Mas incapazes de servir a um deus, ou a um ser humano.

Medusa, o elixir da vida e o veneno da morte. Aceitar ser o “seduzido” é perder-se para sempre de si mesmo. Ser o eleito é carregar a culpa e a depressão, mas ter a possibilidade de perceber de que para estes males existe tratamento e cura.

É preciso somente coragem para enfrentar o processo terapêutico, não o encarando como uma trajetória impossível, mas reconhecendo, com maturidade, todo o sofrimento causado pelo processo.

Enfim, o paciente parece ainda não possuir consciência de que, ao resolver o problema através da terapia, eles podem ser considerados sobreviventes, e que todo sofrimento terapêutico é muitas vezes menor do que o vivido com Medusa.

Em outras palavras: o pior já passou. Agora é caminhar para derrubar os muros que os conduzirão à liberdade, é reconhecer-se Pégaso, abrir as asas e voar...

Marise de S. Morais e Silva Santos
Revisão do texto: professor Elias Celso Galvêas.

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