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CONTINUAÇÃO
3) A OPINIÃO PÚBLICA EM FACE DA GUERRA
Não há dúvida de que a opinião pública colombiana rejeita de forma decidida a violência dos guerrilheiros e dos paramilitares. A rejeição é de tal ordem, que 57% dos entrevistados pelo jornal El Tiempo,no ano passado, aprovaram uma eventual intervenção das Forças Armadas americanas. Nas eleições municipais do ano passado, a grande maioria do eleitorado pronunciou-se em favor da paz. Mas parece não haver claridade acerca dos meios que devem se postos em prática para consegui-la. Ou melhor: as pessoas ainda esperam uma solução miraculosa, tipo intervenção dos mocinhos.
Segundo pesquisa desenvolvida pelo matutino liberal El Espectador e publicada no edição de 6 de fevereiro do ano em curso, para 78% dos entrevistados as recentes ações armadas das FARCs demonstram que essa organização guerrilheira não quer a paz, e para 80% dos entrevistados o ELN tampouco a quer. 78% dos entrevistados consideram, de outro lado, que os paramilitares também não buscam a paz. Em relação à pergunta de se o governo deveria conceder ao ELN uma zona de distensão, como fez em relação às FARCs, a opinião dos entrevistados foi contrária num 72%. Esses dados, somados à majoritária
desaprovação à gestão de Pastrana (62%, contra um 31% que aprova), mostram que a atual política do governo colombiano está errada e que deveria ser formulada ma nova estratégia em face das ameaças dos insurgentes e dos paramilitares.
4) SAÍDAS PARA O CONFLITO E RISCOS PARA O BRASIL
Cientistas políticos destacam que é possível reverter a situação em que a guerrilha e os paramilitares ganham espaço e acuam as Forças Armadas e os cidadãos. O primeiro passo seria o governo mudar a sua política de distensão. Haveria, teoricamente, duas alternativas: ou vencer totalmente a guerra, aniquilando as forças insurgentes, o que não seria viável, ou criar condições estratégicas para uma paz negociada, o que seria possível. O governo Pastrana não tem sabido negociar a paz. Daí a sua impopularidade. Ninguém oferece, de mão beijada, a organizações armadas que se deixaram contaminar por práticas criminosas, um monte de regalias, incluindo a zona de distensão, sem ter uma saída para tornar realidade às promessas de paz. É necessário que as Forças Armadas comecem a ganhar a guerra no terreno militar, para que os guerrilheiros e os paramilitares queiram negociar a paz, e para a que a sociedade recobre a confiança nas instituições.
Essa mudança estratégica implica numa profunda reformulação das Forças Armadas, desburocratizando a gestão, mudando os critérios para promoções a fim de privilegiar quem luta e não quem fica no escritório, modernizando o armamento e profissionalizando o exército, de forma a ter uma organização mais enxuta e ágil. Foi só os Estados Unidos anunciarem em janeiro deste ano a ajuda de 1,6 bilhão de dólares para o governo colombiano combater a narcoguerrilha, e os líderes das FARCs mudaram imediatamente o chocho discurso marxista-leninista, dizendo que apoiavam um modelo social-democrata e partiram em comitiva, junto com o negociador oficial, para conhecer esse modelito nos países escandinavos, na Espanha e na França. Cinismo guerrilheiro à parte, o fato é que um simples anúncio produziu resultados concretos.
Em segundo lugar, é necessário que a sociedade colombiana reaja, deixando de lado o fatalismo que incorporou ao longo dos últimos anos, como se já tudo estivesse entregue às baratas. Falta, a meu ver, uma bem desenhada campanha de esclarecimento à população acerca da natureza do conflito, a fim de começar o governo a ganhar a guerra também no terreno psicológico. Há resultados positivos: o primeiro, o fato de a polícia, sob o comando do general Rosso José Serrano, ter conseguido desmantelar, ao longo da década passada, os cartéis da cocaína, graças a que a organização policial foi modernizada estrutural e praticamente (como revela com detalhes o general, no seu livro Jaque Mate); o segundo, o fato de o governo colombiano ter conseguido manter funcionando o país, em condições adversas econômica e politicamente, embora de modo precário, mas de forma suficiente como para ganhar o apoio internacional.
A conclusão que podemos tirar no Brasil é a de que não pode haver tolerância com organizações que se situam à margem da lei e que tentam substituir o jogo político partidário e a prática da democracia representativa, por formas de cooptação, sejam elas quais forem. O peso da lei deve cair, sem dó, sobre todos aqueles que atentarem contra as nossas instituições livres. Mantê-las e aperfeiçoá-las é a condição necessária para paz e a felicidade nossa e das futuras gerações.
Enganam-se redondamente os que pensam que as últimas iniciativas do MST não passam de atos de oposição ao atual governo. Os procedimentos usados pelo Movimento são estratégia de confronto, destinados a desestabilizar as instituições. Não é a outra finalidade da tomada de prédios públicos, da invasão indiscriminada de proprietários rurais (não apenas latifúndios improdutivos, mas também produto e até áreas de média extensão cultivadas por camponeses pacíficos), do bloqueio ao trânsito nas estradas, da intimidação aos que não concordam com as suas táticas, da aliança com os arruaceiros de plantão (como foi observada na recente greve dos caminhoneiros), da retenção de funcionários públicos, das ameaças de bloqueio às vias que escoam os produtos Mercosul, dos xingamentos às autoridades legitimamente constituídas, da condenação indiscriminada à política do atual governo, etc. É estratégia de confronto tudo isso, sim, inserida na finalidade mais ampla de enfraquecer as instituições democráticas, a fim de abrir caminho para mais quentes, com a aparição de grupos armados.
Ora, não sejamos ingênuos, essa foi a estratégia que conduziu, na Colômbia, no México e no Peru, à luta armada que hoje ameaça a estabilidade da democracia nesses paises. As guerrilhas, na América Latina, tornaram-se mais pragmáticas que as dos decênios anteriores (romanticamente inspirada na figura do guerrilheiro-mártir). O que hoje acontece na Colômbia, e que tenho ilustrado em vários artigos publicados no Caderno de Sábado e no Caderno de Domingo do Jornal da Tarde, de São Paulo, é o estágio mais adiantado do que começa a se gestar aqui no Brasil. À arruaça sistemática e macunaímica do MST e dos seus comparsas seguirá a luta armada, já confessada por alguns líderes mais afoitos, com a finalidade de tornar reféns do Movimento populações rurais situadas na periferia (como tem acontecido em El Caguan, na Colômbia, onde as FARCs de Tirofijo indicam quem pode ser eleito nos pleitos municipais e regionais, aplicam justiça sumária e cobram impostos extorsivos). Aventura irresponsável que todos sabemos onde irá a parar: na desestruturação da vida democrática penosamente conquistada e na volta de novo ciclo autoritário.
Diante da ameaça que o MST apresenta hoje às instituições, não valeria a pena instaurar uma CPI correspondente, a fim de indagar de onde vêm os polpudos dinheiros que financiam o Movimento (que cont, aliás, com claque internacional muito bem organizada, à maneira da que dá sustentação aos guerrilheiros colombianos)? O normal seria que o MST se transformasse em Partido Político, com plataforma e candidatos, a fim de que a opinião pública pudesse saber o que ele pretende e por que meios busca realizar os seus ideais de justiça social. A parti daí, o Movimento poderia legitimamente aspirar a conquistar o poder, alicerçado não na arruaça das ruas e dos campos, mas no voto do eleitorado. Mas como o Movimento não se organizou em Partido Político e diante da agressividade de confronto total encenada pelos seus líderes, a sociedade brasileira deve saber hoje o que ele pretende. A mais democrática forma de saber as coisas a respeito é, creio, a CPI proposta.
Parcela não pequena de responsabilidade cabe aos governadores que, de modo geral, passaram a agir como espectadores das arruaças protagonizadas pelos sem-terra. Ora, se a lei não é obedecida nos Estados, se as suas autoridades (eleitas legitimamente para garantir a ordem pública) tornaram-se reféns do politicamente correto, será muito difícil ao Governo Federal manter incólumes as instituições pelo Brasil afora. Isso para não falar da irresponsabilidade notória de segmentos da sociedade civil que, embalados nos sonhos populistas de um socialismo fácil, fazem o jogo dos baderneiros, querendo convencer Deus e o mundo que se trata de luta pela justiça social. Sejamos claros: este é um ideal importante demais para faze-lo naufragar ns águas turbas de um Movimento que faz pouco da inteligência dos cidadãos deste país, ao apresentar como solução para a pobreza a derrubada da ordem democrática conquistada com tantos sacrifícios.
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