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COLÔMBIA: UMA GUERRA CONTRA A SOCIEDADE
Por Ricardo Vélez Rodríguez - Prof.Titular da Univ. Gama Filho/adjunto da Univ. de Juiz de Fora


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COLÔMBIA: UMA GUERRA CONTRA A SOCIEDADE.

Ricardo Vélez Rodríguez - Professor titular da Universidade Gama Filho e professor
Adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora


A melhor forma de caracterizar o conflito que aflige aos colombianos seja talvez afirmar que é uma guerra contra a sociedade. Não se trataria, em sentido estrito, de uma guerra civil (em que uma parte da sociedade briga contra outra, ou em que a sociedade se encontra dividida em várias facções que lutam entre si).O conflito no país vizinho é protagonizado por minorias (guerrilheiros, narcotraficantes e paramilitares) que lutam entre si e contra as Forças Armadas, ficando os 40 milhões de colombianos como reféns dessa briga. Aí radica o dramatismo da situação dos nossos irmãos, no meio de uma guerra que a maioria não quer, mas que lhes tem sido imposta por minorias de fanáticos e facínoras. É evidente que as causas da guerra que hoje enfrenta a Colômbia têm raízes de longa data na história do país. Mas o sentimento dos cidadãos é o de que a guerra atual é um desastre que desabou sobre as cabeças de todos. Talvez aí, nesse fatalismo, radique uma das causas do problema.

Desenvolverei neste ensaio quatro pontos:

1) estudos sobre a guerra,
2) estrutura e dinâmica do conflito,
3) a opinião pública em face da guerra e
4) saída para os conflitos e riscos para o Brasil.


1)ESTUDOS SOBRE A GUERRA

O conflito colombiano tem dado ensejo a volumosa bibliografia, que revela a crescente preocupação dos intelectuais e das organizações internacionais. Praticamente têm sido abordados todos os aspectos relacionados à guerra, desde as variáveis econômicas e políticas, passando pelas culturais, as jurídicas e levando em consideração, também, a repercussão internacional do fenômeno. Há até um boom literário dos anos noventa, no que respeita a uma nova narrativa em torno ao conflito. Um exemplo disto é o escritor Jorge Franco, cuja obra Rosário Tijeras, que retrata a destruição do tecido social colombiano ensejada pela narco-guerrilha, constitui hoje um best seller.

Outros autores novos que giram ao redor da mesma temática são Lina Maria Pérez Gaviria (ganhadora do Prêmio Internacional de Contos “Juan Rulfo”), Miguel Angel López (premiado pela Casa de las Américas de Cuba), Héctor Abad Faciolince (ganhador do prêmio Casa de América de Narrativa Innovadora) e Juan Felipe Robledo (ganhador de Prêmio Internacional
Jaime Sabines, do México). Esse boom literário é acompanhado, também, por um grande surto de criatividade no plano do cinema. Apenas para lembrar um dos diretores mais premiados (recebeu a Palma de Ouro em Cannes), citarei o nome do jovem Victor Gaviria, que dirigiu os filmes Rodrigo De La vendedora de rosas, verdadeiras epopéias dos jovens heróis-vítimas do submundo criado pela luta armada colombiana.

No terreno dos estudos sociológicos e políticos recentes, poderia mencionar os seguintes: de Hernando Gómez Buendía (organizador) Para donde va Colômbia?[1999]; do general Rosso José Serrano, Jaque mate [1999]; de Alfonso Monsalve e Eduardo Dominguez (organizadores) Colômbia: democracia y paz [1999]; de Hemes Tovar Pinzón, Colômbia: droga, economia, guerra y paz [1999]; de Alfredo Rangel Suárez, Colômbia: guerra em el fin de siglo [1999]; de Álvaro Camacho, Andrés López e Francisco Thoumi, Las drogas:
uma guerra fallida [1999]; de Francisco Javier Barreto (organizador), La outra guerra: el derecho como continuación Del conficto y lenguaje de la paz [1999].

A revista francesa Problémes d´Amérique Latine, no número 34 do ano passado, publicou sob o sugestivo título de “Colombie: une guerre contra la société” (que inspirou a manchete deste ensaio) cinco artigos de grande atualidade: de Daniel Pécaut, “Colômbia, uma paz inatingível”, de Camilo Echandía Castilla, “A guerrilha colombiana: condições objetivas e estratégias de uma expansão”; de Fernando Cubides, “Colômbia: a violência dos paramilitares”; de Adolfo Leon Atehortúa Cruz, “Colômbia: o lugar do exército no
conflito político armado” e de Mauricio Rubio, “Colômbia: grupos armados e justiça penal”. Este ensaio alicerça-se nessa bibliografia, bem como em recentes artigos e informes da imprensa (tirados especialmente dos boletins da Agência France Presse, dos jornais El tiempo e El Espectador de Bogotá e El Colombiano de Medllín, bem como das revistas Semana, publicada na capital colombiana, Época, editada em São Paulo e América Economia, publicada em Santiago do Chile).


2)ESTRUTURA E DINÂMICA DO CONFLITO

O conflito colombiano constitui, hoje, uma das principais preocupações estratégicas dos Estados Unidos. Segundo dados do Centro de Estudos sobre Conflitos da Universidade do Rosário (Bogotá) e do sistema Cultural e Informativo do governo dos Estados Unidos USIS), há quatro prioridades estratégicas para os americanos no mundo pós-guerra fria: Colômbia (pelo risco de desestabilização continental que representa), Nigéria (pois o que suceder nesse país repercutirá no continente africano, dada a sua situação estratégica como uma das principais potências militares da área), Ucrânia (que constitui uma força nuclear cujo comportamento é incerto) e Indonésia (que é a primeira potência militar do Oceano Índico e que enfrenta sérios problemas para conservar a unidade do seu território). Não é por acaso que o governo dos Estados Unidos tenta aprovar no Congresso uma ajuda ao governo colombiano de aproximadamente 1,6 bilhão de dólares, a fim de combater a narco-guerrilha.

As estatísticas acerca do conflito colombiano são deveras assustadoras e revelam a magnitude que atingiu nos últimos dez anos. A Colômbia é hoje o país que possui, dentro das suas fronteiras, o maior número de refugiados de guerra no mundo, segundo dados fornecidos pela Consultoria para os Direitos Humanos (1.900.000 refugiados, dos quais 1.100.000 menores de idade). O conflito armado obrigou, de outro lado, a mais de 500.000 colombianos a se exilarem no exterior.

Segundo dados do Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar, 2.000 menores integram as filas guerrilheiras e 3.000 foram incorporados aos grupos paramilitares. De outro lado, o conflito praticamente paralisou a economia do país.

Estima-se que o crescimento para 1999 caiu para menos 5%, ao passo que os restantes países da América Latina ficaram em 0%, no mesmo período. Do ponto de vista da propriedade da terra, a reforma agrária está paralisada, sendo inexistente, praticamente, uma política agrícola. Tanto a onda dos grandes cartéis de cocaína, nos anos 80, quanto à guerrilha e os paramilitares, nos anos 90, produziram o fenômeno de uma maior concentração. Os grandes proprietários são hoje 13.000, ao passo que aproximadamente 500.000 medianos proprietários possuem a metade da terra registrada. Perambulam pelo país afora milhões de camponeses sem terra e sem trabalho, que constituem, obviamente, a massa de manobra de onde os guerrilheiros e paramilitares extraem as suas forças.

As organizações guerrilheiras contam na sua totalidade com aproximadamente 20.000 homens. As fontes de financiamento delas, após a derrubada do império soviético são constituídas, basicamente, pela comercialização da droga (que lhes garante um lucro de 500 milhões de dólares anuais) e pela extorsão contra os cidadãos, principalmente mediante o seqüestro (há hoje mais de 3.400 seqüestrados, sendo a Colômbia o país campeão mundial nesse tipo de crime). A guerrilha está fortemente armada com aparelhos modernos fornecidos pela maia russa, pelo governo sírio e por contrabandistas de El Salvador. O esquema de financiamento para a compra desses materiais bélico conta, hoje, com a ajuda de ex-ditador da Guiana Holandesa, Dersi Bouterse. As FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) possuem hoje 15 mil homens, distribuídos em 62 frentes concentradas em 7 blocos. O ELN (Exército de Libertação Nacional) conta com aproximadamente 5.000 combatentes distribuídos em cinco blocos, que se subdividem em 32 frentes rurais e 8 urbanas.

A guerrilha colombiana deixou de ser um movimento armado idealista e restrito a algumas localidades rurais. Tornou-se uma empresa bélica pragmática e desenvolveu na última década uma clara estratégia de ocupação do território nacional, a partir da divisão do país, Os guerrilheiros das FARCs tornaram-se fortes especialmente na estratégica região ocupada pela Cordilheira Oriental, que passa ao meio do país e na qual está situada a capital, Bogotá. A finalidade dessa estratégia foi dupla: em primeiro lugar, ocupar áreas altamente desenvolvidas nos vales andinos, a fim de garantir o financiamento da atividade guerrilheira mediante a chantagem e o seqüestro de industriais, comerciantes e produtores rurais ricos e remediados. Em segundo lugar, obrigar as Forças Armadas a pulverizar a sua presença. É incrível como o Exército colombiano caiu nessa cilada e hoje se encontra espalhado em mais de 120 quartéis pelo país a fora, que são facilmente atacados pelos guerrilheiros.

A guerrilha colombiana, em conseqüência, ampliou muito a sua atividade econômica e terrorista no país: dos 1.000 municípios colombianos, ela está presente em 650. Nos municípios das regiões sul e sudeste (que limitam com o Brasil, na região amazônica), os subversivos são praticamente a única autoridade que administra justiça, cobra impostos e dirige racionalmente as atividades dos produtores de cocaína e de heroína, tendo garantido o plantio da coca e da papoula, a fim de não depender da matéria-prima vinda do Peru e da Bolívia e contando, ao mesmo tempo, com ampla gama de aeroportos não controlados pela Força Aérea.

Isso se tornou possível graças à entrega pelo governo as FARCs, no ano passado, de ampla área de 42.000 quilômetros quadrados, que consolidou a balkanização do país em três regiões claramente definidas e tumultuadas: o noroeste, onde dominam os paramilitares, o centro e nordeste, onde ainda tenta governar o Estado e o sul e sudeste, praticamente em mãos dos insurgentes. De outro lado, os 20.000 guerrilheiros, camponeses pobres na sua maioria, não têm de que se queixar, pois cada guerrilheiro recebe ao ano ingressos de aproximadamente 70.000 dólares, soma que equivale a 40 vezes o que ganha um colombiano médio [cf. Agence France Presse, 1997].

Ao financiamento dos guerrilheiros têm contribuído, de forma irresponsável, organizações e empresas multinacionais do primeiro mundo, que passaram a negociar diretamente com os terroristas sem levar em consideração a sua capacidade de destruição. Em relação a este ponto, deve ser dito, com todas as letras, que é uma hipocrisia sem tamanho os países desenvolvidos condenarem, nos foros internacionais, países do terceiro mundo pelo desrespeito aos direitos humanos e, ao mesmo tempo, apoiarem sub-repticiamente movimentos guerrilheiros que desconhecem esses direitos, só para obterem vantagens econômicas. Isso, por exemplo, ocorreu na Colômbia em 1996, quando o governo descobriu que firmas alemãs (no caso, a Mannesman), tinham dado aos guerrilheiros do ELN 4,0 milhões de dólares, com os quais os elenos do padre-guerrilheiro Manuel Pérez retomaram fôlego para suas ações terroristas. Isso com conhecimento do governo alemão à época [cf. “La conexión alemana”, Semana, 1996: 40-81].

Sintetizando a estratégia política da guerrilha colombiana, escreve o cientista político Alfredo Rangel, na sua obra Colômbia: guerra en el siglo: "No terreno político, a estratégia da guerrilha centrou-se em ocupar o poder local. Dessa forma, se concentrando no domínio dos pequenos poderes municipais, as guerrilhas resolveram a grande contradição em que se debatem atualmente e que consiste em possuir uma grande solidez econômica e uma indiscutível e crescente capacidade militar mais, ao mesmo tempo, uma imensa debilidade na sua capacidade de convocação política nacional. Isso tem sido muito positivo e tem suprido fartamente a carência de um projeto político aceitável e atrativo para as grandes massas urbanas”.

As Forças Armadas colombianas contam, na atualidade, com 117.000 homens distribuídos em 5 divisões e 24 brigadas. O custo de manutenção delas corresponde a 11% do orçamento e 3,07% do PIB.O principal problema que enfrentam é o da sua estrutura arcaica, que as têm impedido de responder de forma ágil e eficaz à nova estratégia dos grupos guerrilheiros. A respeito, escreve o cientista político Adolfo León Atehortúa: “A partir de 1995, as forças armadas sofreram derrotas sucessivas em face das FARCs. Esta cascata de insucessos manifesta que os militares não estão preparados para levar adiante o combate contra as guerrilhas que são capazes, por sua vez, de juntar simultaneamente numerosos efetivos em múltiplos do território. A sua falta de mobilidade, a carência de equipamentos adaptados a uma guerra moderna, a falta de treinamento dos recrutas, a imprecisão das suas diretrizes, a burocratização da sua gestão, as modalidades de promoção, são outros tantos fatores que pesam na sua eficácia. Nessa situação, não
é de estranhar que alguns comandantes locais não tenham encontrado outra solução
que delegar aos paramilitares a tarefa de garantir o controle ou reconquista de
certas regiões”. Isso se traduz, naturalmente, em freqüentes violações aos direitos humanos.

Nos municípios onde ainda não exercem o controle total, notadamente os do centro e nordeste do país, os guerrilheiros fazem gala do seu pragmatismo e da insensibilidade diante dos direitos humanos. Nessas regiões, excluídos apenas os grandes centros urbanos, os subversivos cobram 10% do orçamento municipal. Prefeitos e vereadores que se oponham a essa partilha são banidos ou sumariamente assassinados. O eleitorado dessas regiões passou a ser pressionado pelos guerrilheiros para que votasse, nas últimas eleições municipais, nos candidatos indicados pelas FARCs ou pelo ELN. É o fenômeno que os analistas políticos têm caracterizado como “clientelismo armado” ou “salvadorização” da guerra. Exemplo dessa pressão terrorista sobre a sociedade civil foi o bárbaro assassinato de uma fazendeira de classe média, cometido pelos guerrilheiros das FARCs mediante um colar-bomba (com tecnologia aprendida da ETA), em meados de maio deste ano cf.León 2000:1-3].

Nas grandes cidades, a fim de que os contribuintes percebam o poder dos subversivos, são sistematicamente reténs nos arredores das grandes cidades, a fim de praticar as chamadas “pescas milagrosas”, ou seqüestros. Ninguém sai mais nos finais de semana. O lazer consiste em as pessoas se reunirem em família, ou em ir ao cinema. Fazer turismo interno é uma aventura que pode sair muito cara e custar a própria vida. De outro lado, os atentados perpetrados de forma sistemática contra os oleodutos servem para alertar os políticos e a opinião pública contra planos de privatização do setor energético ou petrolífero e para cobrar das multinacionais polpudas “vacinas”, que evitariam mais prejuízos. O terrorismo corriqueiro contra a cidadania é o que permite caracterizar a situação colombiana como uma guerra contra a sociedade.

Os paramilitares, por sua vez, contam com um número de aproximadamente 7.000 combatentes, concentrados especialmente na região noroeste do país, embora tenham começado a se deslocar para o centro e para o sul, a fim de se apropriar de ricas regiões hoje sob controle da guerrilha. A característica fundamental dos “paras”, chefiados pelos irmãos Castanho (que assistiram ao assassinato dos seus pais pelas FARCs, nos anos 80), é que constituem grupos de extermínio extremadamente violentos, que têm como finalidade eliminar comunidades camponesas inteiras suspeitas de darem apoio aos guerrilheiros. As Forças Armadas têm sido acusadas, em repetidas oportunidades, de receberem a colaboração dos “paras” e hoje parece que esse tipo de relação diminuiu consideravelmente, graças à pressão internacional. De qualquer forma, a estratégia de “terra arrasada” dos paramilitares tem produzido êxodos multitudinários de camponeses que engrossam hoje as favelas de Medellín, Cali e Bogotá. No que respeita ao seu financiamento, os “paras” têm se inspirado nos métodos da guerrilha, notadamente utilizado os dinheiros “calientes” dos produtores de coca e heroína, embora na sua fase inicial tivessem recebido apoio de criadores de gado de região do Magdalena Médio.


Este trabalho continua com os seguintes tópicos:

3) A OPINIÃO PÚBLICA EM FACE DA GUERRA

4) SAÍDAS PARA O CONFLITO E RISCOS PARA O BRASIL

Link para a segunda parte deste trabalho:

http://maxpages.com/elias/A_Guerrilha_Colombiana_parteII


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