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A Guerra de Canudos - Parte II


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"Após as campanhas no Sul, o Exército estava exaurido e não nutria nenhuma simpatia por qualquer ação militar sobre Canudos. 0 emprego da tropa federal foi decidido, conforme a Constituição, por iniciativa exclusiva do Poder Polrtico, e conduzido pelo Dr. Manoel Vitorino Pereira, Vice-Presidente da República do governo Prudente de Moraes. Longe de ser orientado para pacificar a região conturbada, o Exército recebeu ordens claras para "destruir Canudos", pela presumivel ameaça que representava à República, no entender do Governo Federal".
Regina Abreu


A Primeira Expedição: aconteceu no governo de Prudente de Moraes, em Novembro de 1896.

Em Jazeiro, às margens do Rio São Franciso, à noroeste de Canudos, corriam rumores de que, por causa do atraso de um carregamento de madeira enconmendada para a construção de uma nova igreja no arraial, os conselheiristas preparavam uma invasão da cidade. Começa, então, a guerra, a princípio como um eqúívoco.

Assustada com o boato, a população pressionou o juiz local a notificar o fato ao governador do Estado, Luís Vianna, que resolveu enviar a Canudos uma expedição punitiva, composta por 104 homens, sob o comando do tenente Pires Ferreira. Este acontecimento representava o primeiro dos sucessivos vexames que seria imposto aos militares.

Essa era a primeira expedição enviada pelo exército brasileiro: quando os soldados encontravam-se em Uauá, já nas proximidades de Canudos, sentiram a aproximação de estranho cortejo, composto de uma fila de pessoas que rezavam entoando cânticos religiosos, carregando, à frente, um estandarte do Divino, juntamente com uma grande cruz. Armados com facões, paus, trabucos, pedras, foices, etc., enfim, tudo o que as circunstâncias permitiam no momento, o grupo de pessoas compunha um batalhão do conselheiro, prontos para lutar e morrer por sua fanática causa. Os conselheiristas, após quatro horas de intensa batalha, embora com muito mais perdas, puseram o inimigo a correr. Assim, tinha o término o episódio que ficou conhecido na História como a Primeira Expedição.

A Segunda Expedição: foi comandada pelo major Febrônio de Brito, e foi cinco vezes mais poderosa do que a primeira, com seus 550 homens. Estrategicamente, utilizou o Monte Satno como base de operações e ponto de partida da ofensiva militar. A segunda expedição permaneceu por quinze dias na cidade, antes de marchar contra Canudos. Então, tudo aconteceu muito rápido: ao se aproximar de Canudos, bastaram apenas dois longos dias para que a expedição, igualmente mal articulada, fosse posta a correr, depois de ter sido surpreendida pelo inimigo numa emboscada nos morros próximos do arraial dos rebeldes.

A Terceira Expedição: naquelas circunstâncias, a questão do "irredentismo dos fanãticos sertanejos" já adquirira projeção nacional, pois a humilhação imposta ao exército e à República (recém insitiuída) já era demasiada. Tão frequente era o histerismo gerado pelos acontecimentos, que o pensamento dominante acusava Canudos como sendo o foco de uma insurreição contra o novo regime republicano, que consistia numa tentativa de internacional de reimplantar o sistema monárquico no brasil - o que era considerado pela camada política dominante um retrocesso em termos administração pública do Estado. O novo regime já enfrentara o desafio da Revolta Armada e da Revolução Federalista, porém, agora, enfrentava as mesmas ameaças acrescidas de um forte fundamentalismo religioso. Tal revolta oriunda dos sertões, sem dúvida, poderia rapidamente se proliferar país a fora, nos arraiais monarquistas e, quem sabe, com o apoio do exterior? Isto tudo serviria para desestabilizar fortemente o novo sistema implantado.

Apenas um homem seria capaz de acabar com essa angustiante situação: o bravo veterano, coronel Moreira César, com seus 47 anos de idade, paulista de Pindanmonhangaba, que chefiaria um contingente de 1300 homens, formando, assim, a Terceira Expedição contra Canudos.

" Lá vão dois cartões de visita ao conselheiro", disse, ao se aproximar de Canudos, quando ordenou o disparo de dois tiros de um dos seus dois canhões Krupp. Durante sua marcha, o maior medo do coronael Moreira César era que os conselheiristas abandonassem a cidade, o que o privaria, naturalmente, da inevitável glória de derrotá-los em combate. O precipitado otimismo do coronel e de seus subordinados aumentava, a medida em que se aproximavam da cidade: "Vamos tomar a cidade sem disparar mais um tiro, toma-lá-emos à baioneta!".

Num tempo onde não se tinha como conter tal doença, Moreira César contava com um adversário tão difícil de vencer quanto o Conselheiro: a Epilepsia, e, além disso, era dono de um temperamento instável e impulsivo. Ácabou por sofrer de dois ataques epilétipcos sérios durante sua campanha em Canudos.

Então, o excesso de confianã de Moreira Cèsar foi inversamente proporcional à sua previdência: ordenou que seus homens atacassem após longo dia de marcha penosa, sem descanso. O Obrigou-os a avançar até dentro do arraial, onde, além de impossibilitar o apoio da artilharia (que atingiria seus prórprios homens se utilizada), travou-se luta corpo a corpo contra os homens do conselheiro, que levavam extrema vantagem por conhecerem os labirintos e as ruelas onde a batalha se travou. Moreira César ordenou um ataque de cavalaria em planície aberta, o que complicou ainda mais sua situação, posto que a mesma se tornara um alvo fácil para os homens do Conselheiro, que se encontravam entricheirados num reduto cheio de barreiras.

Num gesto de agonia, Moreira César, talvez por perceber que a derrota estava próxima, abandonou seu posto de comando, endireitou seu cavalo na direção de Canudos e avançou, proferindo: "Vou dar brio àquela gente !". Tendo sido atingido no ventre por uma bala, vergou-se, largando as rédeas de seu cavalo, não mais conseguindo ir muito adiante. Morrera naquela mesma noite, cercado por seus subordinados.

O Quarto e Último Fogo: devido ao fracasso da terceira expedição, que resultou na morte de uma lenda viva do exéricto brasileiro, o Coronel Moreira César, uma grande mobilização nacional foi deflagrada. A quarta expedição haveria de ser muito maior e mais equipada, e não deveria ter a mínima piedade dos revoltosos do sertão, incapazes de compreender as "maravilhas" que o regime republicano prometia gerar. O então general Arthur Oscar de Andrade Guimarães foi o escolhido para o comando. Ao ter aceito sua missão o general declarou: " Todas as grandes idéias têm os seus mártires. Nós estamos voltados para o sacrifício de que não fugimos para legar à geração futura uma República honrada, firme e respeitada".

Euclides da Cunha, que em suas reportagens tentava cobrir a senha patriótica em voga, acabou adotando uma postura crítica em relação à mesma, escrevendo em seu livro, "Os Sertões": " A paixão patriótica roçava, derrancada pela insânia".

Foram mobilizados para a nova investida, inicialmente, mais de 5000 homens, reunidos de batalhões desde o Rio Grande do Sul, até o Amazonas. Dessa vez, as forças foram divididas em duas colunas: a primeira, como as duas anteriores se concentraria em Monte Santo; enquanto a segunda, comandada pelo general Cláudio Savaget, partiria de Aracajú para Canudos, essa era a grande novidade.

Foi necessária a presença do próprio ministro da guerra na época, o marechal Carlos Machado Bittencourt, para levantar o moral das tropas, pois, num dado momento, a avassaladora força reunida para esmagar o arraial de Canudos, com mais de 5000 homens, se viu atrapalhada e impotente como as espedições anteriores.

A primeira coluna fora surpreendida numa emboscada no Morro da Favela, tendo sido salva por muito pouco, ao conseguir uma junção com a segunda coluna. Segundo Euclides da Cunha, depois de um mês de combate a tropa mais parecia "uma aglomeração de fugitivos". Dos 5000 soldados, 900 estavam mortos ou feridos, ou seja, fora de combate. A fome começava a imperar: por conta própria, os soldados organizavam grupos para caçar bodes (ou o que houvesse para comer), mesmo correndo o risco de cair nas numerosas armadilhas dos sertanejos - como, de fato, foi o destino de muitos.

"Agora era a vez de um marechal, e Bittencourt desembarcou em Monte Santo ao mesmo tempo que para lá afluíam reforços que montaram a 3000 homens suplementares".

A estratégia do marechal Bittencourt não consistia em grandes manobras táticas, ou no aumento de tropas, mas sim na constante regularização do abastecimento das tropas conciliada com a utilização racional do contingente de soldados veteranos já em combate. Foi dessa forma que o exército começou a ganhar a guerra, revertendo a sua situação crítica.

E o final da guerra estava bem próximo: veio o cerco à Canudos, juntamente com um impiedoso bombardeio, seguido pelo inevitável massacre e incêndio do arraial. As degolas praticadas - as conhecidas "gravatas vermelhadas" tornaram-se uma prática célebre, aplicadas no pescoço dos conselheiristas.

Calcula-se que morreram, ao todo, 15000 pessoas na guerra de Canudos - sem contar os feridos e mutilados. Quase nada sobrou daquela cidade-santuário que sonhou em ser a Jerusalém dos confins do mundo, tendo a mesma acabado num mar de sangue, reduzida a escombros, cadáveres e cinzas.

Mais uma vez, nas palavras do grande Euclides da Cunha: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamente completo. Expugnando palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos queis rugiam ruivosamente 5000 soldados".

Finalmente, no dia 6 de outubro de 1897, um dia após a tomada definitiva de Canudos, descobriu-se o local onde o Conselheiro tinha sido enterrado. Após desenterrarem Antônio Conselheiro, fotografaram seu cadáver e, com uma faca afiada, deceparam-no (prática muito comum em guerras naquela época), tendo sido sua cabeça levada para Salvador.


APRECIAÇÕES FINAIS
Canudos não existe mais. Não obstante, a vila do Conselheiro, além de ter sido destruída pela guerra, também foi alagada, em 1968, pelas águas do Açude de CocorobóExiste uma cidadezinha que leva o nome da histórica Canudos, atualmente, a 10 km da cidade original. Lá existe, hoje, o "Centro de Conviência" da Igreja Católica, que consiste num local destinado à reuniões e festinhas, administrado pela irmã Cirila, que guarda muitos objetos da história de Canudos. Lá se encontra a cruz de Antônio Conselheiro, aquele cruzeiro que se encontrava em frente da igreja velha, que foi alagada. A madeira encontra-se cheia de fendas, necessitando de cuidados para não apodrecer. A cruz encontra-se deitada no chão, sendo a mais importante relíquia encontrada no arraial.

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