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A Guerra dos Canudos - Parte I
A Grande Manifestação Anti-República no Brasil do Final do Século XIX


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INTRODUÇÃO

Segundo Luís Koshiba e Denise M.F.Pereira, no livro “História do Brasil”,
página 226:

“No final do século XIX e no início do atual, a expansão do capitalismo provoca importantes transformações em todo o mundo. No Brasil, esse fenômeno é responsável pela abolição da escravatura e a proclamação da República. Por toda parte ocorrem reajustes sociais que forçam a adaptação, transformando as antigas formas de convívio social.

Nesse contexto, em várias regiões do mundo eclodiram movimentos de resistência às mudanças por parte de sociedades onde o sistema de dominação não tinha assumido ainda um caráter claramente capitalista. São as sociedades rústicas onde as relações sociais continuam dependendo dos laços de fidelidade pessoal. No Brasil, estas rebeliões primitivas são representadas, principalmente, pela Guerra de Canudos e Contestação.

Essas rebeliões primitivas surgem em função das alterações provocadas pelo capitalismo que desestabiliza as antigas formas de organização e dominação sociais. O capitalismo faz cair o véu que oculta a opressão e a miséria dessas sociedades rurais arcaicas. As rebeliões que assim nascem são um protesto trágico contra a opressão e a miséria, mas um protesto sem projetos claros ou definidos. Quase sempre, as aspirações dos rebeldes primitivos se mesclam à profunda religiosidade, sem orientação política. Daí a razão de seu isolamento e, consequentemente, do seu fracasso ante as forças repressivas dos poderes constituídos”.

A Guerra de Canudos foi um conflito singular na história dos primeiros anos do Brasil República, que aconteceu no período do governo do primeiro presidente civil da história de nosso país: presidente Prudente de Moraes (1894-1898).

Após quatro expedições militares, no dia 5 de outubro de 1897, após um ano de incessáveis lutas e uma feroz resistência por parte de seus defensores, o arraial chamado Belmonte, fundado por Antônio Conselheiro no Nordeste da Bahia, foi finalmente tomado pelo exército.

Calcula-se que morreram, ao todo, 15.000 pessoas na Guerra de Canudos. Quase nada sobrou daquela cidade-santuário que tinha sonhou ser a Jerusalém dos confins do mundo acabou num mar de sangue, reduzida a escombros, cadáveres e cinzas. Nas palavras de Euclides da Cunha:

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnando palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam ruivosamente 5.000 soldados.”

A Religião no Interior do Brasil – Beatos e Conselheiros: segundo Luís Koshiba e Denise M.F.Pereira, no seu livro “História do Brasil”, página 226-227:

“A origem dos beatos encontra-se nas atividades ligadas ao Padre José Maria Ibiapina, que seguindo a orientação do catolicismo de seu tempo, procura melhor comunicação entre clero e fiéis. Ao Padre Ibiapina deve-se a criação de inúmeras ‘casas de caridade’ mescla de orfanato e escola que se multiplicaram a partir da segunda metade do século XIX.

Essas ‘casas de caridade’ eram administradas por ordens leigas, não oficiais, isto é, não reconhecidas pela Igreja, mas toleradas por ela. É em função dessas ‘casas’ que irão se multiplicar estas ordens de beatos, que eram expressão concreta da intensificação da religiosidade no sertão nordestino.

Dentro desse quadro que começa então a aumentar o prestígio de Antônio Conselheiro que, por isso mesmo, passa a ser perseguido sistematicamente pela Igreja. Já com inúmeros seguidores, logo após a proclamação da República, Antônio Conselheiro se estabelece no sertão baiano, na localidade denominada Arraial de Canudos, à margem do rio Vaza-Barris. Formam ali uma comunidade de beatos, que em virtudes das crescentes pressões religiosas e civis, decidem romper com o mundo circundante, organizando-se assim uma comunidade consciente de suas particularidades. (...)”

Desde os tempos da colonização portuguesa, a Igreja teve uma grande influência na formação cultural do povo brasileiro, ao lado da religião. Em algumas regiões nordestinas, principalmente na Bahia e em Pernambuco, onde ocorreram uma maior concentração de escravos africanos, operou-se o sincretismo religioso em que se misturaram as figuras dos santo cristãos com as divindades das tribos africanas, de onde surgiram as linhas espiritualistas da umbanda e do candomblé.

Em outras regiões, principalmente no interior do Nordeste, mais pobre que o litoral, surgiram, a partir do final do século XVIII e início do XIX, algumas manifestações místicas, que relembram algumas fases religiosas do Oriente Médio, na Antigüidade, com a figura dos profetas, acompanhados de uma pequena multidão de crentes, a peram-bular pelas estradas. A imitação dos profetas acontecia no Nordeste brasileiro, na figura dos beatos e dos conselheiros, que percorriam o sertão pregando o Evangelho de Cristo, levando a tiracolo um surrado exemplar do Novo Testamento. São tentativas de se imitar São João Batista ou, até mesmo, uma tentativa de imitar o próprio Cristo. Essas figuras existem, ainda hoje, no interior do Brasil.

Em relação às funções, o beato é diferente do conselheiro: o beato tira rezas, pede esmolas e ajuda os pobres. O conselheiro vai além: dá conselhos prega a palavra. Na hierarquia informal do sertão, o conselheiro situa-se acima do beato.

Um dos principais motivos da ocorrência de tais guias espirituais, no interior do Nordeste, podia ser explicado pela ausência de padres locais. Segundo o professor e escritor Cândido da Costa e Silva, da cadeira de História das Religiões da Universidade Federal da Bahia: “(...) não existiam para contestar a Igreja oficial, mas para suplementá-la.” A falta de padres que dariam assistência permanente às famílias levava à necessidade de algum movimento por parte das pessoas a fim de suprir essa falta. Por isto, os tiradores de reza e as incelências representavam fórmulas que supriam a falta de uma liturgia oficializada, bem como a falta de pessoal. A ascensão à condição de beato ou conselheiro dava-se de maneira natural, pelo gradativo destaque que essas figuras iam conquistando junto à população, em virtude de sua liderança, capacidade de expressão, compaixão e outras qualidades.

Antônio Conselheiro: Antônio Vicente Mendes Maciel, nas-cido no ano de 1830, em Quixeramobim, no Ceará. Antes de se tornar beato foi professor primário, comerciante, e advogado (rábula). Não era de família pobre, porém remediada. Não era totalmente ignorante, mas tinha alguma cultural. Alguns atribuem a radical mudança em suas concepções e modo de vida a uma desilusão amorosa – sua mulher, chamada Brasilina, o abandonou. Porém, antes de renunciar definitivamente aos amores e prazeres da vida, ele ainda se uniria a uma Segunda mulher, uma fazedora de imagens conhecida como Joana Imaginária.

Em 1874, aos 44 anos, tem-se as primeiras notícias de suas atividades: um registro do jornal “O Rabudo”, da cidade de Estância, localizada no Sergipe, notificava que um certo Antônio dos Mares, em suas andanças pelo sertão, vinha atraindo uma espantosa quantidade de pessoas. Ele andava pelo sertão de Sergipe, ajudava os necessitados, pedia esmolas, rezava e pregava para o povo, acompanhado por um crescente número de seguidores. Sempre que parava numa cidade, oferecia-se para recuperar ou construir igrejas ou muros de cemitérios. Tinha o hábito de fazer (construir) igrejas e arrumar cemitérios.

Nas suas longas caminhadas (verdadeiras peregrinações) pelo sertão, Antônio Conselheiro vestia um camisolão azul, sem cintura. Tinha cabelos longos como Jesus e longas barbas. Para enfrentar o pó das estradas, calçava sempre uma sandália, protegendo a sua cabeça com um grande chapéu de abas largas. Carregava sempre um cajado nas mãos, como o fazem os santos e os profetas - escolhidos que sabem o caminho do céu e da salvação.

Conhecido, numa certa época, como Antônio dos Mares (ou irmão Antônio), Conselheiro saudava as pessoas dizendo: “Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo”. As pessoas, por sua vez, respondiam-lhe: “Para sempre seja louvado”. Seus fiéis mais devotos conferiram-lhe o título de “Bom Jesus”, ou “Santo Antônio”, porém, quando conquistou definitivamente sua fama, passou a ser conhecido por Antônio Conselheiro.

A Perseguição dos Coronéis e da Igreja: segundo Luís Koshiba e Denise M.F.Pereira, em seu livro “História do Brasil”, página 227:

“A comunidade de Canudos assim torna-se um núcleo próspero dedicando-se inclusive à trocas com as cidades vizinhas. Naturalmente, os grandes proprietários rurais se inquietaram com o crescimento de Canudos e, dessa forma, as articulações para a sua dispensão se iniciam, com o apoio da Igreja. Contra Canudos, as denúncias oficiais se multiplicam, acusando seu líder – Antônio Conselheiro – de conspirar contra a República em virtude de sua posição monarquista. Argumento, aliás, amplamente utilizado como pretexto às repressões que serão desencadeadas.”

Antônio Conselheiro nunca se aventurou a ministrar sacramentos, ou seja, jamais ousou ir além do que sua condição permitia. Por não aconselhar senão práticas de longa tradição sertaneja – como o jejum, longas caminhadas e carregar pedras para pagar pecados penitência) -, e também pelo fato dele não pregar além da teologia conservadora da região, Antônio Conselheiro não podia, de forma alguma, ser acusado de desvios de doutrina.

Não obstante, a Igreja se mostrava cada vez mais hostil frente sua presença, tanto que no ano de 1887 o arcebispo de Salvador, Dom Luís Antônio dos Santos, pediu providências ao governo do Estado, que, por sua vez, transferiu a responsabilidade para governo do Império. O objetivo era internar Conselheiro no Hospício D.Pedro II, no Rio de Janeiro.

A resposta da autoridade Imperial era de que, no dado momento, não havia vaga no referido hospício. Ainda objetivando reprimir Conselheiro, a autoridade eclesiástica tratou de se unir aos coronéis do sertão, que também se sentiam duplamente incomodados com a enorme influência, tanto no sentido político quanto no econômico, que Antônio Conselheiro exercia sobre as pessoas.

Tanto o Conselheiro, atuando nos sertões do Sergipe, quanto o Padre Cícero, no Ceará, ambos contemporâneos, conseguiam “drenar” a mão-de-obra das fazendas, ao mesmo tempo que atrapalhavam o voto de cabresto, instrumento de manipulação que garantia a eleição e reeleição dos coronéis na época.

Quando a influência do movimento de Antônio Conselheiro atingia seu auge, o Brasil passa do Regime Monárquico para o Republicano. O Conselheiro, tradicionalista como era, recusa-se a aceitar o novo regime, alegando ser a República um instrumento do anti-Cristo, uma ordem estabelecida por Satanás. Tivera a audácia de separar a Igreja do Estado, além de instituir o casamento civil, usurpando da Igreja o poder oficial e exclusivo de celebrar matrimônios. A mentalidade moral da época considerava a mulher casada no civil uma
“prostituta testemunhada”.

O novo regime também delegava aos municípios o poder de instituir e coletar impostos. O Conselheiro encontrou, certa vez, o povo da cidade de Natuba inconformado com os impostos anunciados em editais no centro do povoamento e incentivou a destruí-los. Esse foi o seu primeiro ato de desobediência civil.

Por esse motivo, uma tropa policial tentou detê-lo, nas proximidades de Masseté, o que resultou na retirada das tropas, e três mortos de cada lado. A situação para Antônio Conselheiro, que começava a ficar crescentemente
desfavorável, pedia uma decisão urgente.

Depois de vinte anos de incansáveis peregrinações, pregações, jejuns e andanças, Conselheiro decidiu procurar, com seus seguidores, um lugar onde pudessem rezar em paz, aconselhar em paz, a viver em paz, longe dos “agentes do insano governo dos incréus, ou dos bispos que faziam o jogo do Diabo”. Nascia, portanto, Canudos, o futuro povoado de Belomonte.

O Arraial de Canudos: Como vimos antes, foi somente depois de vinte anos de andanças pelo interior do Nordeste que Antônio Conselheiro resolveu interromper sua vida errante e se estabelecer em local permanente, com a pequena multidão que o acompanhava pelas estradas, de cidade em cidade. Encontrou o local propício aos seus desígnios no interior da Bahia, em um lugar amplo e descampado, chamado Umburanas ao pé do morro da Favela e do arraial de monte Santo, tendo ao fundo a Serra de Piguaraçá. Aí fundou-se Canudos.

O arraial cresceu rapidamente, a cada dia incorporando-se a ele novos agregados e famílias vindas de muito longe, e de todas as partes. “Uma multidão de casas de taipa, ordenadas, ou melhor, desordenadas em volta de uma praça: eis o que era o arraial”. “Na praça central havia duas igrejas, uma em frente da outra – as chamadas ‘igreja velha’, a menor, e ‘igreja nova’, esta ambiciosa obra empreendida pelos conselheiristas, nunca terminada”.

Talvez exageradamente, o exército estimou em 25.000 a sua população total, o que a tornava a Segunda cidade da Bahia na época, somente inferior a Salvador. A Guerra de Canudos travou-se, verdadeiramente, em torno da praça das igrejas, mais precisamente, da igreja nova, em cujas torres e andaime entrincheiravam-se os sertanejos a fim de alvejar os inimigos, e que, por outro lado, consistia no alvo predileto da fuzilaria e dos canhões do exército. Quando caiu a igreja nova, acabou Canudos.

Em seu magnífico livro “Os Sertões”, Euclides da Cunha, testemunha ocular da Guerra de Canudos, descreve o arraial com desdém e visível antipatia. Horrorizou-se com a arquitetura e o urbanismo do arraial, que chamou de “urbs monstruosa” e “civita sinistra do erro”.

Apesar de toda a sua erudição, Euclides ignorava, até então, o interior do Brasil e nem sabia que aquelas eram – como ainda são hoje – as habitações comuns do sertanejo pobre.

A Guerra de Canudos e as Quatro Expedições Militares:
Resumidamente, para se ter idéia de como Canudos resistiu aos ataques do poder instituído, observemos o seguinte: a primeira expedição, com 104 homens, foi comandada por um tenente; a segunda, com seus 1300, por um major; a terceira, com 3000 homens, pelo lendário coronel Moreira César – todas, até então, fracassaram totalmente; e, enfim, a quarta e última expedição, inicialmente, com 5000 homens, dividida em duas colunas, por dois famosos generais, e com a supervisão de um marechal, o então ministro da guerra marechal Bittencourt.

A Quarta expedição sofreu muitas perdas, apesar de bem equipada. Tantas foram as perdas do exército, que eles, no final do conflito, precisaram do reforço de 3000 homens adicionais para que o destino da guerra fosse decidido.

Na segunda parte da história da Guerra dos Canudos veremos, com detalhes, o relato das quatro incursões realizadas pelo governo republicano brasileiro contra a revoltosa cidade de Canudos.

Fim da primeira parte...

PARA ACESSO A SEGUNDA PARTE DESTE TRABALHO ENTRE EM: http://maxpages.com/elias/Guerra_dos_Canudos_Parte_II

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Page Updated Sun May 3, 2009 10:29pm EDT