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ENTREVISTA COM O PROFESSOR ARNALDO NISKIER

DOUTOR EM EDUCAÇÃO PELA UERJ

As perspectivas do "e-learning" como estratégia de Ensino à Distância - no Brasil e no mundo


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Breve release: Professor Arnaldo Niskier, Doutor em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Ex-Secretário de Estado de Educação e Cultura, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, 67 anos de idade.

ECG - Os atuais modelos de transmissão e administração do conhecimento estão sendo eficazes no sentido de conferir uma sólida e permanente educação ao indivíduo?

AN - A resposta é negativa: não! E por que isso?
Nós precisamos imaginar – e eu vou me situar particularmente no meu país, no Brasil – que há uma população de 175 milhões de indivíduos, dos quais apenas 3% possuem acesso à Internet. Portanto, a injustiça social que isto representa se expressa direta e objetivamente nestes dados estatísticos.

Estamos falando em métodos eficazes capazes de conferir uma sólida e permanente formação ao indivíduo: sim, há um seleto grupo de felizardos - aquela minoria elitizada - que pode ter acesso à Internet que, por sua vez, ainda não é utilizada, em nosso país, como um instrumento de democratização de acesso ao conhecimento.

Portanto, deixo aqui uma resposta muito clara: a Internet está sendo um instrumento eficaz para aqueles poucos – na proporção da população brasileira – que dispõem dos instrumentos adequados para o recebimento das informações via rede.

ECG - Quanto às atuais estratégias de utilização das novas tecnologias para a proliferação do conhecimento, o senhor acha que elas estão sendo aplicadas de maneira adequada, democrática e justa? Caso positivo, justifique. Caso negativo: quais seriam as soluções mais adequadas a fim de minimizar os acidentes de percurso mais comuns?

AN - Bem, para responder adequadamente a esta questão, precisamos começar definindo o problema no contexto da realidade em que ele é vivenciado: não existe um planejamento adequado - em nível nacional - sobre o que nós entendemos por utilização de novas tecnologias para a “expansão do conhecimento” – expressão que prefiro utilizar.

Não existe uma política definida, pois ela foi “rascunhada” pelo governo passado, que, por sua vez, demorou – de forma absurda – a enviar elementos para a aprovação do Plano Nacional de Educação, o que se fez com muito atraso (de pelo menos dois anos) no Congresso Nacional. Com isto, o próprio sistema foi vitimado pela falta de uma estrutura que deveria ter sido estabelecida por estes parâmetros, por estes indicadores. Portanto, hoje, eu diria que cada agrupamento, cada nicho - relativo a esta modalidade educacional – existente no mercado, presta uma contribuição desordenada, desprovida de diretrizes comuns. Desta forma, por um lado, nem as universidades encontram-se apetrechadas para entrar em rede e realizar um trabalho com uma estratégia eficaz, tampouco isto é capaz de acontecer, evidentemente, por geração espontânea. O que se observa é a existência de esforços isolados – como, por exemplo, a Fundação Getúlio Vargas, que, tanto no Rio quanto em São Paulo, é um modelo brilhante de atuação. Mas o fato é que, em relação à utilização adequada dos meios tecnológicos para a expansão do conhecimento, não temos, atualmente, muitos modelos exemplares – como o da FGV - para se elogiar e nos basear - o que é um absurdo, sabido que o país possui 52 Universidades Federais que poderiam ser motivadas a traçar diretrizes estratégicas de utilização destas novas tecnologias.

Promessas e palavras escritas existem em penca. Há alguns instrumentos oficiais - dentro do Ministério da Educação - que também operam teoricamente em relação ao estabelecimento destas diretrizes. Mas a realidade do país em relação ao assunto é uma balbúrdia: não há um comando que possa garantir a existência contínua de um planejamento formal, eficaz, competente e democrático – que atenda a todos os cidadãos -, nada disto está existindo no presente momento. E, portanto, esta carência de políticas e diretrizes nesta área representa a minha maior crítica.

ECG - Qual seria, na sua opinião, o perfil geral dos alunos que procuram o ensino à distância. A quem se destina o ensino à distância atualmente? E a quem ele se destinará no futuro?

AN - Vamos por partes: hoje existe uma série muito pequena de experimentos oficialmente autorizados pelo Conselho Nacional de Educação, a partir de um curso de Matemática calcado na “Open University”, de Londres, que se faz na Universidade Federal do Pará. Segundo informações, é um curso que não está obtendo resultados satisfatórios.

Há, igualmente, uma experiência de EAD, também encabeçada pela Universidade do Pará, sobre Ciências Físicas e Biológicas.

Existe meia dúzia de experiências significativas relativas ao EAD – não mais do que isso.

É um número pífio, com resultados que estão se revelando irregulares, e, ademais, por falta de interesse político, ainda não se tomou uma deliberação concreta para que se faça o uso adequado dos meios tecnológicos que promoveria a expansão do EAD.

Quanto ao perfil dos alunos que procuram o ensino à distância, se nós nos remetermos ao século passado, seriam aqueles alunos do interior, que não dispondo de ensino médio – sobretudo o profissionalizante – procuravam o ensino por correspondência.

Desta forma, a primeira manifestação de interesse pelo ensino à distância foi dada por esses cursos históricos do Instituto Universal Brasileiro, que conferiam ao aluno uma semiqualificação profissional à distância – portanto, com um certo grau de precariedade.

O ensino à distância atualmente se dirige, no mundo desenvolvido – como é o caso do Canadá, Estados Unidos, Austrália, Inglaterra, Espanha, Israel, etc. – ele se destina a uma clientela que pode ser também interessada na formação universitária.

Explico melhor este aspecto: hoje as grandes universidades americanas – que costumavam rejeitar a idéia de educação à distância por entender que esta não era tão eficiente quanto à educação presencial – estas mesmas universidades encontram-se, trabalhando, concomitantemente, com o ensino presencial e o ensino à distância. Tais universidades sentiram que há um grande e crescente interesse por parte dos alunos – principalmente daqueles que trabalham – de agir, na relação ensino-aprendizagem, de acordo com o seu próprio ritmo, e não de acordo com o ritmo imposto pela escola regular – que tem suas aulas presenciais em horários certos, provas em dias pré-determinados, e tudo mais.

Então, o ensino à distância está crescendo no mundo, sobretudo no mundo desenvolvido E no mundo emergente – no qual se situa o Brasil - crescem muito as declarações de intenção, mas infelizmente, na prática – seja por falta de recursos ou falta de mentalidade – este crescimento não é o mesmo.

A educação à distância se destinará a nós todos. Eu estive a convite do SESENAC e do SESC, há três anos atrás, em Paris, para assistir a uma conferência da Unesco sobre a “Educação no Século XXI”, e lá se disse uma frase que eu não me esqueço jamais – que eu tenho a impressão que responde muito bem à sua pergunta, Celso: há quem se destinará no futuro? “No futuro, a aprendizagem será para sempre”, eu diria, “futuro” começando a partir de hoje: a aprendizagem será para toda a vida.

O indivíduo que não dispuser de tempo poderá ir para uma instituição, pagar inclusive taxas elevadas, etc. Mas, se, por outro lado, este mesmo indivíduo não dispuser de algum tempo – na hora do almoço, à noite, sábados e domingos, ele poderá, de acordo com o seu ritmo de aprendizagem, fazer o aperfeiçoamento, a atualização de seus conhecimentos, conhecer livros de bibliotecas estrangeiras poderosíssimas – como é o caso da biblioteca do Congresso Americano, que é a maior do mundo. E terá condições de fazer isso, no seu escritório ou na sua própria casa - portanto, usando o tempo de que dispõe, e não forçando um calendário ou agenda de eventos acadêmicos presenciais, que, para ele - pelo fato de estar trabalhando - se torna muitas vezes impossível de ser cumprido.

ECG - Quais as vantagens e desvantagens do EAD em relação aos métodos tradicionais de transmissão do conhecimento?

AN - Está é uma pergunta já está de “cabelo branco” de tanto que foi respondida.

Foram feitas pesquisas objetivas nos Estados Unidos, principalmente, mostrando que o ensino à distância proporciona um ganho na aprendizagem em relação ao ensino tradicional, ou seja, a pessoa submetida à modalidade da Educação à Distância aprende mais depressa e com menos custos do que um indivíduo submetido a uma educação formal. Isto já se encontra comprovado por pesquisas sérias que foram feitas.

O que fazer para eliminar desvantagens? Não vejo desvantagem alguma na modalidade de Educação à Distância, só vejo vantagens, sobretudo pela amplitude do que ela potencialmente é capaz de fazer.

Eu dou um exemplo: o Canadá – que eu conheço pessoalmente, por que lá estive – possui um projeto online chamado “SchoolNet” (www.school.net).

Este projeto não apenas serve às regiões do Canadá que vivem separadas em virtude do frio, ou seja, unifica o país em relação ao conhecimento, como também é possível – utilizando este satélite exclusivo para o uso da educação – fornecer imagens e informações ao México, a diversos países das Antilhas, e querem até fazer alguma coisa com o Brasil – se o Brasil estiver interessado.

Podemos verificar que as novas tecnologias não fazem da EAD um “brinquedinho”. Nós não estamos falando de ficção científica. Estamos falando de coisas viáveis e concretas: o Brasil possui dois satélites; canais disponíveis para a educação – pouco e mal utilizados, etc.

No que se relaciona à má utilização de nossa tecnologia, eu acredito que seja mais uma questão de mentalidade do país: se o Canadá – que possui, aproximadamente, as nossas dimensões, e problemas muito mais graves geradas por fatores geográficos e climáticos – se este país coloca um satélite doméstico de telecomunicações exclusivamente para o uso em educação, por que não o Brasil?

A conclusão que tiramos é que o Brasil encontra-se mal dimensionado em relação a estas questões, ou seja, ainda não estamos devidamente convencidos de que este é um instrumento poderoso - como ferramenta de expansão do conhecimento – e deveríamos, portanto, estar dando maior atenção ao binômio “educação-tecnologia”.

ECG - O que os professores devem fazer a fim de se adaptar a este novo ambiente tecnológico de aprendizagem?

AN - Vou responder em partes: o professor deve imediatamente adquirir a mentalidade de que ele não é apenas um “transmissor do conhecimento” – tal qual um mosquito que “transmite” uma doença - não é isso!

O professor hoje é um orientador, um conselheiro, um mediador da aprendizagem, um animador cultural...

Então, ele vai viver dentro do ambiente tecnológico moderno uma outra realidade, em que o “magister dixit” – de que se falava tanto antigamente – vai sendo substituído por uma interatividade extraordinária, que, por sua vez, se sedimenta na possibilidade de se falar – à distância - com alunos que estão nos vendo pela televisão, por exemplo.


ECG - Qual o novo papel do professor no contexto do ensino à distância?

AN - Esta pergunta complementa a anterior. O novo papel do professor é exatamente a tentativa de se modernizar continuamente, buscando – com o auxílio das novas tecnologias, ações de vanguarda, a fim de não permanecer naquela “mesmice” ultrapassada. Olhar o relógio e dizer: “Eu tenho cinqüenta minutos”; fazer a chamada – aí perde mais 15 minutos; depois fazer perguntas sobre a vida pessoal de cada aluno – por que isto faz parte do processo de conhecimento; e, depois, restam 20 minutos para dar uma aula mal dada, cansativa, repetitiva, usando metodologias, estratégias e didáticas obsoletas – pouco interativas – enfim, toda espécie de falta de criatividade que os alunos já não agüentam mais.

Hoje, quando se diz que o jovem está com enfado da Universidade – e é uma verdade -, isto se deve principalmente ao fato que a qualidade dos profissionais que estão ministrando aulas para eles é bastante precária: os professores não sabem tanto quanto os alunos gostariam de aprender – ou apreender -, justamente por causa destas rápidas mudanças nas conquistas científicas e tecnológicas – que, em geral, o professor acomodado é incapaz de dominar. Daí, nestas circunstâncias, no que se refere diretamente ao relacionamento professor-aluno, é natural que o professor acomodado crie uma certa antipatia (que é geralmente mútua) em relação aos seus alunos.

ECG - O professor precisará ser um mestre em informática?

AN - Não. Mestre em Informática é uma formação específica, especializada, e há cursos – como a Ciência da Computação – em que o indivíduo, depois disto, vai fazer o seu mestrado – aqui ou no exterior.

Assim, o professor não precisa ser um mestre em informática, mas deve conhecer os rudimentos da informática para poder operar em igualdade de condições em relação aos seus alunos – que, por sua vez, aprendem muito rapidamente todos os “macetes”, todos os mistérios do computador.

No entanto, caso o professor seja capaz de operar mais direta e profundamente o computador – uma plataforma de “e-learning”, por exemplo – isto é bastante desejável e aconselhável.

Hoje em dia, no que se refere a políticas de implementação de tecnologia no Brasil, o Ministério das Comunicações – ocupado pelo Ministro Miro Teixeira, que é uma pessoa muito ativa e competente – pretende ativar o FUST (Fundo de Universalização das Telecomunicações), que colocará um computador em cada escola - perfazendo um total de cem mil computadores. No início da educação passada cogitou-se em se fazer isso - e não foi feito: colocaram apenas 3.000 computadores, sem manutenção, nas escolas – o que representou uma aventura dispendiosa e completamente fora de propósito.

Mas, agora, o Ministro Miro Teixeira alega que se os recursos forem liberados de forma que se possa efetivamente comprar um número adequado de computadores e, ao mesmo tempo, treinar previamente os professores para o contexto, aí sim eu creio que teremos um avanço bastante significativo.

Programar grandes plataformas - que disponibilizam o “e-learning” para empresas e universidades – é assunto bastante complexo para os especialistas da área de informática, sendo que uma plataforma adequada não custa, hoje, menos do que 30 milhões de reais. Então, por envolver tecnologia de ponta, não é qualquer professor que – por conta própria – vai dizer: “vou fazer uma plataforma!”, e quem é que vai arrumar este dinheiro, quem irá financia-lo?

As plataformas que permitem a disponibilização de módulos para o e-learning aos usuários finais não precisam ser tão numerosas, e elas já se encontram, em bom número, à disposição no Rio de Janeiro para quem deseja fazer um programa de Educação à Distância – e eu conheço, particularmente, a Universidade Carioca, por exemplo, possui uma boa plataforma, com capacidade ociosa... então eu acho que colocar o professor para aprender a fazer plataformas, precisaria ensiná-los a ganhar dinheiro antes, pois, a manutenção de uma plataforma não seria viável com esses salários miseráveis que são pagos aos professores brasileiros, de maneira geral.

ECG - Qual o futuro da relação professor-aluno dentro de um ambiente de Educação à Distância e fora dele?

AN - A relação terá a chance de se tornar mais rica, pois, muitas vezes, uma relação diária é desgastante.
Acho que isto vale para namorado também, vale, enfim, na relação entre seres humanos em geral.

Não quero dizer que não se deva ter um contato diário - um com o outro -, mas, quando este contato não é pessoal – como acontece na EAD – ele passa a ser altamente enriquecedor, por que ainda não existe, em lugar algum do mundo, diplomas ou certificados conferidos pela EAD, sem que as provas sejam presenciais – e, tampouco, sem que os alunos sejam preparados, mesmo que à distância, sem a eventual participação de tutores, que são pessoas – localizadas em determinados centros - atendendo a questões que alunos podem individualmente colocar para eles, pelo computador ou pessoalmente.

Desta forma, defendo a existência dos tutores, defendo esta relação do professor com o aluno à distância, mas será pessoal também - sempre que se fizer necessário – ou através da tutoria, ou através dos exames que, como já foi dito, são, todos eles, presenciais.

Fora disso, o professor tem seus horários, o que quer dizer que o aluno não irá ter a disponibilidade do professor o tempo todo – por que isto exatamente contraria o princípio de ação da própria educação à distância.

ECG – Para encerrar, Dr. Arnaldo, quais são, em linhas gerais, as perspectivas desta nova modalidade de ensino no Brasil e no mundo?

AN - No Brasil, as perspectivas são extraordinárias! Este setor vai crescer muito. Vai crescer devido às dimensões do nosso país, bem como pela perspectiva de mudança que já está acontecendo nesta área da vida brasileira.

Hoje é dia 27 de janeiro de 2003, e quantas vezes o Ministro Cristovam Buarque já citou a palavra “mudança”. E mudança quer dizer qualidade. A qualidade, portanto, só poderá ser alcançada com professores motivados, com professores prestigiados, bem pagos, e, enfim, com professores bem treinados e preparados – inclusive para o uso adequado da Educação à Distância.

Quanto às perspectivas mundiais, não há dúvida: o mundo está aproveitando as novas modalidades de ensino proporcionadas pelos novos meios tecnológicos. Até nações menos desenvolvidas como o Egito também estão utilizando Educação à Distância; a Bolívia utiliza Educação à Distância – acredito até que, no momento, de forma mais intensa do que nós mesmos.

O Brasil ainda se encontra bastante atrasado – como é costume em se tratando de assuntos que envolvam Ciência e Tecnologia – mas nós devemos reagir no sentido de nos colocarmos à altura daquilo que o mundo, hoje, reconhece como um poderoso instrumento de transmissão do conhecimento, que é exatamente a Educação à Distância.

ECG - Agradeço ao Doutor Arnaldo Niskier pela honra e a oportunidade única de realização desta entrevista.


Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 2003.

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Page Updated Sun May 3, 2009 10:29pm EDT