Entrevista com o professor Elias Celso Galvêas (SENAC - ARRJ): texto na íntegra.
Carioca, 35 anos, ex-aluno dos colégios São Bento, Andrews e Mallet Soares, o professor Elias Celso Galvêas é um entusiasta da sua profissão. Formado em Pedagogia pela Universidade Santa Úrsula, onde também cursou Matemática, Elias é pós-graduado - em "Docência do Ensino Superior" - pela UFRJ.
Fundador e Coordenador da "Professores Associados", tem 15 anos de experiência no ensino, principalmente no ramos das aulas particulares. Trabalha - há 5 anos - para o SENAC (ARRJ), atuando como consultor, junto às áreas de "Projetos Especiais" e "Planejamento Estratégico", e como pesquisador nos campos do Ensino, Educação e Gestão Corporativa. No ano de 2002, foi professor titular de Matemática e Física do Vestibular Comunitário do Morro Santa Martha, iniciativa organizada pela PUC-Rio em conjunto com a Pastoral da Comunidade.
Nesta entrevista, o professor aborda a relação entre professores e alunos, além de fazer uma breve análise dos novos caminhos que Educação vem tomando. Vamos à entrevista:
- [J.de Bairros]: No seu ponto de vista, o que mudou na relação professor-aluno?
- [prof.Elias]: Atualmente, o volume de conhecimentos do ser humano dobra, em média, a cada cinco anos, principalmente por causa do "boom" da Internet que, a partir da década de 90, passou gradativamente a tirar das Instituições Acadêmicas o papel de únicas geradoras e mantenedoreas do conhecimento. Neste contexto, tampouco o professor pode ser considerado o detentor de todo o saber.
Por terem acesso fácil às novas fontes do conhecimento, os alunos estão mais bem informados e, portanto, mais questionadores. Isto exige do professor uma nova postura que, por sua vez, implica na reformulação de estratégias e, do ponto de vista do relacionamento humano, a reestruturação de inúmeros conceitos. Apesar de ainda ter grande importância no processo educativo, o foco não está mais no professor, no aluno, ou nas instituições acadêmicas. A ênfase está na seleção, registro e organização dos conhecimentos disponíveis na Internet e nos mais variados meios de comunicação. Assim, o professor deve adquirir uma formação pedagógica mais sólida, capaz de tranformá-lo, efetivamente, num educador - prerapado para enfrentar os novos desafios interdisciplinares que as novas tecnologias nos proporcionam a cada dia. Desta forma, o simples acúmulo e domínio de conhecimentos - em suas respectivas áreas -não são mais suficientes para conferir-lhe a competência necessária para transmití-los de maneira adequada e interdisciplinar.
Ademais, é igualmente necessário que, além da relação profissional e formal, possa ser estabelecido um vínculo de confiança e respeito entre as partes. Sem isso, é bem provável que, mais cedo ou mais tarde, o aluno "desista" de (verdadeiramente) aprender, o que o levará a aprender simplesmente por obrigação de tirar uma nota.
Por outro lado, o mestre, sem amor pelo que faz, não será capaz de transmitir o conteúdo de forma efetivamente adequada, tornando - com o tempo - a aprendizagem um martírio para ambas as partes (professor e aluno), tornando, desta forma, o aprendizado inviável.
- [J.de Bairros]: Qual o perfil - em geral - dos alunos que procura por aulas particulares?
- [Prof.Elias]: Em 15 anos de experiência na área do ensino, pude observar que, normalmente, é o aluno que apresenta um quadro de baixo rendimento escolar que gera insegurança, primeiramente quanto à compreensão do conteúdo estudado, mas que pode vir, em maior ou menor grau, a afetar sua estima, bem como o seu relacionamento com a família. Além disto, a dificuldade numa disciplina específica - se não sanada a tempo - pode vir a se refletir em outras disciplinas em que, originalmente, o aluno não sentia dificuldade.
Na maioria das vezes, são alunos dispersivos e bastante ansiosos, mas também sensíveis, quase sempre interessados e, invariavelmente, muito inteligentes - o que fica mascarado em função do problema de sua baixa estima. Some-se isto à cobrança excessiva dos pais e o quadro poderá se agravar por completo.
Na verdade, são raros os alunos que nos procuram espontaneamente, imbuídos do verdadeiro desejo de aprender, crescer como pessoa e desenvolver o seu potencial cognitivo e sua capacidade de raciocínio. Tudo tende a girar sempre em torno da nota, da aprovação (ou reprovação), até porque este "sistema tradicional de avaliação" ainda é a cobrança mais comun na maioria das escolas - pois ainda não se encontrou algo que funcione melhor para substituí-lo.
É lastimável que tenha que ser assim, pois, em plena Era da Informação, as instituições de ensino deveriam - em todos os níveis - estar pensando em novas formas de atrair o interesses dos alunos pelo conhecimento, conscientizando-os, com isto, da verdadeira importância da aquisição de conhecimentos relevantes (significativos para o aluno) no atual cenário global.
- [J.de Bairros]: Como professor (particular) e educador, você atualmente adota alguma estratégia metodológica para facilitar a aprendizagem do aluno? Existe alguma garantia que a nota dos alunos irão aumentar?
- [Prof.Elias]: O meu trabalho tem como objetivo fazer com que o aluno encontre, por ele mesmo, o melhor caminho para resolver seus problemas e dificuldades. Portanto, o professor não pode substituir, em hipótese alguma, o esforço pessoal que o próprio aluno deve fazer para se superar. Ademais, também não existe garantia de que o aluno (ou seu responsável) venha a entender e aceitar, de imediato, esta proposta - pois é natural que, num primeiro momento, o aluno e seu responsável venha a jogar toda a carga da responsabilidade no professor.
Porém, nesses meus 15 anos de experiência, tenho conseguido quebrar até algumas resistências mais ferrenhas, ao tentar - gradativa e continuamente - conscientizar alunos e responsáveis da importância do desenvolvimento da confiança mútua e da autonomia emocional e cognitiva do aluno, para que possa acontecer um processo efetivo e eficiente de aquisição de conhecimentos.
Com isto, o aluno - mas cedo ou mais tarde - acaba percebendo o quanto o seu próprio esforço pode levá-lo a recuperar - não apenas o seu bom rendimento acadêmico - mas, principalmente, a sua autonomia, estima e confiança em si mesmo. E, vendo os filhos se recuperarem tão bem de suas dificuldades, seus responsáveis acabam aprendendo alguma coisa também.
Atualmente, o papel do professor é o de facilitador do conhecimento, ou seja, o professor é aquele que presta uma orientação adequada, capaz - não só de fazer o aluno perceber qual o caminho e estratégias mais fáceis para a contínua aquisição e gestão dos saberes adquiridos.
Desta forma, seria leviano de minha parte afirmar que existe algum método mágico, alguma fórmula pronta capazes de solucionar todos os problemas dos alunos, pois, como já pôde ser percebido, existem alguns fatores fundamentais - ou seja determinantes do sucesso acadêmico do aluno -, mas que, infelizmente, independem da vontade direta do professor. Dedicação, disciplina, e, principalmente, uma vontade honesta e genuína de estar sendo atendido pelo professor - independentemente da vontade dos pais - são, com certeza, alguns destes fatores; assim como: motivação, paciência e boa vontade também são.
- [J.dos Bairros] Para terminar, quais são as qualidades essenciais para um profissional de educação destacar-se no mercado de trabalho? Enfim, quais são as qualidades de um bom professor?
- [Prof.Elias]: Primeiramente, deve ser bem intencionado em relação à sua profissão ou atividade, cuja a motivação para sua escolha tenha sido nobre e não por falta de melhores opções.
Como já foi dito, além do pleno domínio dos saberes - aliado à capacidade de articulá-Los -, o bom professor deve sempre procurar demonstrar paixão e verdadeiro interesse pelos assuntos abordados e sentir um profundo e permanente amor pelo que faz.
Deve saber relacionar-se com as pessoas e investir com todas as forças para o desenvolvimento integral de seus alunos. Paciência, compreensão, saber ouvir e calar, ser flexível sempre que possível e, principalmente, ser humilde o suficiente para adimitir que não sabe tudo, mas está sempre disposto a aprender juntamente com seus alunos. Somente a experiência é capaz de formar bons professores.
Finalmente, ou, melhor, infelizmente, o professor deve se conformar em pertencer - na melhor das hipóteses - à classe média, já que a sua importante função é muito pouco valorizada no Brasil. Em nosso país, para ser professor é preciso ter muita vontade. E coragem!
- Fonte: Jornal de Bairros (complemento do Jornal "O Globo");
- Publicado em: 16/12/2004. |
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