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CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME TRAFFIC


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PUC-RJ
Departamento de Educação
Alunos: Elias Celso Galvêas e Camila Rodrigues Leite

REFLEXÕES SOBRE O FILME “TRAFFIC”

O filme Traffic nos causou a seguinte sensação: vivemos numa sociedade falida, numa sociedade corrompida onde os valores humanos estão subvertidos (ou na pior das hipóteses: pervertidos), encontrando-se em franco processo de decadência.

Vamos ao cinema assistir a um filme americano que trata não só das questões das drogas e suas complexas conseqüências, como também dos dilemas da vida familiar, da política, da juventude, do governo e da máfia, enfim, da hipocrisia e das doenças mentais causadas pelos desumanos percursos de nossas atuais sociedades capitalistas.

Numa primeira análise, o filme, muito interessante por sinal, nos parece apenas uma espécie de documentário sobre o submundo latino do tráfico de drogas. Consegue, num primeiro momento, abordar o polêmico assunto das drogas sem se utilizar de “clichês” que agridem as inteligências mais refinadas - ou condenar diretamento os "culpados". A questão é inicialmente colocada como uma teia de fatos e relações que se entrecruzam de maneira peculiar, até certo ponto original, dando um “nó na garganta” de quem senta na sala escura para assistir ao filme. Tudo leva a crer, a todo momento, que não existem soluções plausíveis para a questão das drogas - ao menos soluções que, ao contrário do desejado, não são propriamente imediatas.

Porém, se analisarmos as entrelinhas do filme, ou seja, se fizermos uma reflexão mais profunda em termos ideológicos, verificaremos que o filme contribui muito para uma espécie de propaganda da hegemonia americana, ao passo que pinta os americanos como heróis mundiais do combate às drogas, e, ao mesmo tempo, a principal (e única?) vítima dos cartéis produtores de droga da América Latina.

Para começar, podemos perceber nitidamente a diferença na qualidade das imagens: as cenas que se passam no México são amareladas e granuladas, e, além disso, as cenas escolhidas também reforçam a impressão da imagem que querem passar: um país totalmente abandonado, destruído, excluído, esquecido, enfim, uma verdadeira “terra de ninguém”. Por outro lado, as imagens referentes aos Estados Unidos são sempre coloridas, nítidas, claras e de qualidade – sem falar que as cenas são cuidadosamente escolhidas para ressaltar a imponência do “eterno” mito americano.

O que há por trás desta brilhante técnica? Qual o preço que pagamos por assistir a um filme que, apesar de ter ganho o Oscar de melhor roteiro, consegue denegrir a imagem dos latino-americanos como um todo? De fato, nós somos os bandidos e eles os mocinhos nesta estória?

Outro aspecto surpreendente do filme é o general mexicano: no início, achamos que ele é inocente, mas, no decorrer do filme, percebemos que ele trabalha em interesse próprio, pois deseja aniquilar com um dos cartéis da drogas somente em favor do outro cartel rival que lhe prometera um lugar de supremacia na política mexicana.

Enfim, o filme passa a imagem de que a polícia mexicana, em geral, é totalmente corrupta e conivente com o tráfico de drogas, enquanto a polícia americana parece estar isenta de qualquer participação na corrupção, pois é composta de “mocinhos” que estão acima de qualquer suspeita. Sabemos que isto não é verdade, pois em todo lugar há bons e maus policiais, o trigo anda sempre misturado com o joio, em todo lugar que se vá – e será que os Estados Unidos conseguem ser exceção a uma regra tão universal?

É interessante observar, também, que o filme quer nos passar a imagem de que os dependentes mexicanos são tratados da maneira mais desumana que se possa imaginar. Já os dependentes americanos, não: são tratados de maneira “VIP”, um tratamento realmente diferenciado. Será que isto é verdade? Ou é apenas mais uma imagem que os americanos querem nos “vender”?

Outra questão levantada pelo filme é a tortura. Será que ela é tão legitimada no México como o filme quer fazer o espectador acreditar? Quer dizer que a polícia americana não pratica a tortura? A polícia americana não mata, não pratica corrupção? Ela é perfeita?

Os Estados Unidos realmente devem ser um modelo para o mundo seguir, não é mesmo? Com a sua Ku-kux-klan que dissemina vergonhosamente o racismo dentro do país; com tanta discriminação étnica – aliás, o berço do neonazismo situa-se nos Estados Unidos e não na Europa, como muitos poderiam imaginar; com sua pobreza e miséria - que fazem questão de manter longe das grandes cidades; com políticos tão safados e corruptos quanto os nossos; com a sua política neocolonialista que insistem em chamar de Globalização, que causa, em todo planeta, o desemprego em massa, enfim, como se eles não tivessem problemas semelhantes aos nossos. Enfim, os americanos podem ser excelentes cineastas, porém são péssimos auto-críticos.

Temos a sensação de que os americanos, atuais “donos do planeta”, possuem uma dificuldade muito grande em se auto-analisar, em enxergar a si próprios, posto que só conseguem encontrar defeito em outros povos, em outros países.

Diante de todas as polêmicas levantadas pelo filme, nós, educadores brasileiros, ou melhor, latino-americanos, temos o dever de não só elaborar uma análise crítica do conteúdo ideológico implícito no filme, mas também denunciar as contradições e a hipocrisia de um povo hegemônico que está muito pouco preocupado com o valor da vida e com a dignidade humana, mas sim com interesses mesquinhos de supremacia política e financeira.



Observação: não somos, de maneira alguma, anti-americanos. Somos, na verdade, pró-humanidade. Aliás, lamentamos profunda e sinceramente a tragédia ocorrida no dia 11 de Semtembro de 2001. Numa visão mais cósmica da vida, pode-se se dizer que nos encontramos, circunstancialmente, latino-americanos e, mais especificamente, brasileiros – assim como, outra parte da população, encontra-se, de maneira igualmente circunstancial, na condição de norte-americanos. Como intelectuais e estudantes, nossa bandeira é a Verdade e o Conhecimento – ou melhor, a aquisição do Conhecimento para a manutenção da Verdade. Não somos, portanto, políticos.

Num mundo e época em que a noção de pátria, a cada dia, dilui-se juntamente com a noção de ideologia, nosso mais sincero voto é que a humanidade se integre, deixando a visão fragmentada que tem de si mesma para trás, pois, como diria Charles Chaplin, não somos americanos, ou judeus, ou muçulmanos, ou pretos, ou brancos, ou amarelos, ricos ou pobres... Enfim, somos todos seres humanos!

No fundo, falamos todos uma só língua - que um dia descobriremos, ou reaprenderemos a falar. Que o Divino Criador inculte rapidamente esta mentalidade em todos nós, e que o Homo Sapiens possa evoluir para Homo Espiritualis, cheio da graça do Espírito Santo. Este é o nosso mais sincero desejo...

Obrigado pela atenção.
Os alunos da PUC-RIO, autores deste texto.

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Page Updated Sun May 3, 2009 10:29pm EDT