Departamento de Educação da PUC-RJ
Os Avanços da Biogenética.
Entrevista com o Professor Luiz Leal Ferraz, professor de Biologia e Coordenador do 2º grau do Colégio São Bento.
Entrevistador: Professor Elias Celso Galvêas (elaborou o questionário).
Rio de Janeiro, 5 de Maio de 2001.
INTRODUÇÃO
O professor Luiz Leal Ferraz é educador, professor de Biologia e coordenador do 2º grau do Colégio São Bento, tendo sido professor do entrevistador Elias Celso Galvêas - quando o mesmo cursava o científico nesta instituição.
Escolhi o tema Biogenética por que, além da oportunidade suis genere de entrevistar um profissional gabaritado como Luiz Leal Ferraz, é um assunto de interesse geral, além de
bastante atual.
Escolhi um professor e não um pesquisador por que queria utilizar uma linguagem clara, simples e objetiva na elaboração do presente trabalho. Sou um leigo no assunto, possuindo apenas conhecimentos superficiais e, provavelmente, as pessoas que terão contato com esta entrevista também poderão ser leigas.
Um pesquisador - que não fosse um professor - talvez abordasse o assunto de maneira demasiadamente técnica e complicada, diferente de um professor experiente, que está acostumado a lidar com alunos iniciantes, explicações, etc.
O que aprendi com este trabalho? Além de elaborar uma entrevista?
Atualmente, ando pensando muito sobre os profundos impactos que as descobertas e progressos na área da biogenética estão proporcionando ao homem pós-moderno. Foi muito gratificante a constatação de que muitas de minhas expectativas e esperanças estão em vias de se concretizar: melhorias genéticas, curas de doenças como o Mal de Azheimer, o Câncer, enfim, uma compreensão melhor fundamentada sobre a origem do homem ao menos em nível de constituição estrutural genética dos seres.
Espero que o trabalho esteja satisfatório e que o mesmo seja de alguma utilidade, de forma geral, para as pessoas que o lerão.
Desenvolvimento - A Entrevista
Professor Elias: o que é exatamente o genoma humano?
Professor Ferraz: é o conjunto das informações contidas no DNA das células humanas e que, em última análise, controla o funcionamento de todas as células, e, indiretamente, controla o funcionamento de todo o corpo. Ele contém informações hereditárias, ou seja, na reprodução, material genético é transmitido de uma geração para a outra, e cada novo ser é formado por um novo genoma - resultado da combinação de uma parte do genoma materno com uma parte do genoma paterno.
Professor Elias: que novas descobertas o mapeamento do genoma humano poderá proporcionar, de maneira geral, à ciência atual? Em outras palavras, qual é (ou será) o impacto de tais descobertas para a pesquisa de doenças como o câncer, por exemplo?
Professor Ferraz: o impacto já está sendo muito grande, pois, na medida em que se conhece o genoma humano, pode-se colher informações como já se faz atualmente com muitas doenças sobre qual é exatamente o ponto, a localização do genoma humano que apresenta uma informação inadequada, uma informação truncada que possui ali um gene, uma unidade informacional que está errada.
Portanto, se nós conseguimos identificar, dentro do genoma humano, onde se estão localizadas as falhas genéticas (os genes ou conjunto de genes "errados", que provocam alguma anomalia), teremos, muito em breve (pois tais processos ainda não são totalmente praticáveis) a perspectiva ou a possibilidade de alterarmos as características, como, por exemplo: substituir genes defeituosos por genes funcionalmente normais, para que determinado indivíduo doente apresente uma vida normal, sadia. As possibilidades de intervenção em nível genético serão muito grandes e, naturalmente, todos estes novos conhecimentos poderão ser utilizados tanto positivamente quanto negativamente.
Professor Elias: já é possível à ciência moderna modificar geneticamente um órgão do corpo humano em mau funcionamento, de forma que ele passe a funcionar adequadamente?
Professor Ferraz: mudar um órgão completamente não é possível, pois, num órgão, todas as células já possuem o seu genoma definido, comportando o conjunto de instruções que, por sua vez, determinarão suas características morfológicas, bem como o seu funcionamento específico. Portanto, se quiséssemos alterar por completo e definitivamente o funcionamento de um órgão, precisaríamos substituir todas as células e isto seria equivalente a fazer um novo órgão. Então, isto exatamente ainda não é possível.
O que é possível ser feito - parecido com isto - é injetar no corpo da pessoa células sadias que possuam informações corretas e não informações mutantes, truncadas e tais células, enquanto estiverem funcionalmente ativas no organismo, elas vão estar, por exemplo, produzindo uma determinada substância que estava faltando para o correto funcionamento do organismo como um todo.
Este processo seria um transplante celular, onde as células sadias auxiliam no cumprimento da função que o órgão deficiente não é capaz de cumprir, mas, comparando com as técnicas atuais, esta é uma terapia de curto prazo, não alterando o genoma das células que compõem o órgão, nem fazendo com que o órgão passe a funcionar como deveria por isto é considerada uma terapia.
Professor Elias: é verdade que uma célula do olho possui as mesmas características genéticas que uma célula do fígado, por exemplo?
Professor Ferraz: isto é absolutamente verdadeiro: todas as células de um mesmo organismo (de uma mesma pessoa) são geneticamente iguais, todas carregam exatamente as mesmas informações. Uma pergunta muito comum que se faz é a que se segue: como é possível células que possuem a mesma informação desenvolverem características diferentes? porque o genoma é um conjunto de informação contida em todas as células de um determinado organismo e, assim, uma célula do olho carrega as mesmas informações que uma célula do pâncreas ou do fígado. Desta forma, como elas podem diferir entre si,
tanto funcionalmente quanto morfologicamente? O que acontece é a existência de mecanismos, ainda não totalmente elucidados, mas já identificados, em que o indivíduo ativa e inativa partes do seu genoma.
Então, uma comparação que gosto de fazer é que o genoma é um manual de instruções dividido em vários capítulos que são os vários genes que o indivíduo tem. Portanto, todas as diferentes células de um mesmo organismo possuirão, cada uma, uma cópia completa deste manual de instruções, que é único. Porém, as células, de acordo com a sua natureza específica, na hora de seguir tais instruções, considerarão alguns capítulos e ignoram outros. Isto é capaz de explicar este dilema, onde existe diferenciação celular, apesar de todas as células do corpo serem geneticamente idênticas.
É a partir deste conhecimento que se pode fazer a clonagem, como foi o caso clássico da ovelha Dolly o primeiro mamífero clonado que se tem notícia. O que se fez foi pegar uma célula da glândula mamária de uma ovelha, utilizando-se do núcleo onde está todo o material genético -, transplantá-lo para um óvulo, em substituição de seu núcleo e, finalmente, ativar este óvulo, induzindo-o à dividir-se como aconteceria se o mesmo tivesse sido naturalmente fecundado. Desta forma, a partir da célula de uma glândula mamária foi produzido um corpo completo, com todos os órgãos e todas as funções. Dentro desta célula mamária inicial encontravam-se íntegras todas as instruções e informações genéticas - embora a mesma só desempenhasse as funções relativas à da célula mamária, pois qualquer outra função estaria inativa. As células estavam ali, íntegras, tanto que foram reaproveitadas neste processo de clonagem.
Professor Elias: esta sua resposta foi bastante importante para a pergunta que vem a seguir. A ciência desvendou o mapeamento funcional do genoma da espécie humana, isto é correto?
Professor Ferraz: exatamente, isto mesmo...
Professor Elias: já existe, portanto, alguma espécie de mapeamento funcional, ou seja, um mapa que permita entender, em nível de genes ativado ou não, por que um neurônio se diferencia funcional e morfologicamente de uma célula do pâncreas, por exemplo?
Professor Ferraz: sabemos o motivo pelo qual existe esta diferenciação do neurônio de uma célula do pâncreas. Porém, o mecanismo preciso que faz com que a célula do fígado, a célula dos rins, um neurônio siga este ou aquele "capítulo", ative este ou aquele conjunto de gene e deixe de ativar outro, este mecanismo ainda é muito pouco conhecido. Já existem algumas informações que nos trazem algumas luzes dentro destas trevas, deste campo ainda obscuro do conhecimento humano, porém, tudo isso ainda é muito pouco.
Naturalmente, a medida em que tal conhecimento vá sendo desvendado, quando os cientistas começarem a entender tal mecanismo a ponto de interferir diretamente em seus processos, certamente poderemos fazer com que uma célula que possui certa característica assuma outra característica, tanto no sentido estrutural quanto funcional. Para isto, basta que sejamos capazes de interferir no mecanismo natural de ativação e inativação gênica. Porém, ainda não temos este tipo de informação em mãos, ainda não dispomos deste conhecimento devidamente registrado e disponível. Eu acredito, todavia, que não levará muito tempo para que tenhamos este conhecimento disponibilizado.
Professor Elias: sabemos que o apêndice é um órgão humano que não possui uma utilidade ou função específica. A fim de ajudar os diabéticos, por exemplo, a ciência já é capaz de modificar geneticamente as células do apêndice, fazendo-as funcionar como as do pâncreas. Em outras palavras, será possível, no futuro, gerar órgãos transgênicos que poderão servir para transplantes?
Professor Ferraz: com certeza. Porém, o apêndice não é um órgão propriamente sem função, não é um órgão inútil. Ele é até um órgão dispensável, a pessoa pode viver sem ele, mas ele tem alguma utilidade: já se verificou que ele é um órgão que contribui para o bom funcionamento do sistema imunológico. Quando nós dominarmos - e não vai demorar muito tempo - a técnica de substituição gênica, de alteração de genes e genes ativados, esta hipótese por você levantada - programar células do apêndice para desempenhar a função do pâncreas, por exemplo -, não seria necessária, pois, na verdade, quando dominarmos tal tecnologia, seremos capazes de realizar uma intervenção direta nas células inativas do próprio pâncreas, tornando-as novamente ativas. Daí, nós iríamos substituir genes ou substituir células inativas por células geneticamente modificadas para serem ativas, introduzindo-as no pâncreas da pessoa - não seria preciso modificar o órgão para tal.
Agora, esta questão de transplante de órgãos irá realmente acontecer, mas não creio que será útil alterar o órgão do corpo, não creio que seja este o caminho. O que eu acho que irá acontecer - que é o que já se faz - é cultivar células fora do corpo, "in vitro", em laboratório, uma cultura de células vivas, de forma que se possa controlar o mecanismo em dois aspectos: primeiro, o da divisão celular - podendo estimular ou inibir o processo da divisão celular da maneira que o cientista desejar, ou seja, em se desejando o aumento da massa de células, estimula-se a divisão celular; quando a massa chegar ao tamanho desejado, começa-se a inibir o processo. Paralelamente a isto, precisa-se interferir no mecanismo de diferenciação celular, de modo que esta massa de células - que se encontra no laboratório crescendo de maneira controlada - possa definir-se funcional e morfologicamente, como sendo uma massa de células que formará um determinado órgão, ou conjunto de órgãos.
Portanto, esta criação de órgão, a partir de células, provavelmente irá acontecer e será uma forma de produzir órgão para transplantes, em substituição àqueles que estiverem eventualmente defeituosos.
Professor Elias: mudando um pouco de tópico, mas ainda dentro do mesmo assunto (genética): O que o Sr. acha dos alimentos transgênicos? Eles são, de fato, prejudiciais à saúde?
Professor Ferraz: assim como eu não tenho, ninguém tem ainda uma resposta precisa e definitiva para isto. O que existe é um temor, um receio de que estas células de alimentos geneticamente alterados, ao entrar em contato com o organismo, possam, de alguma maneira, provocar algum desequilíbrio na saúde humana. Mas, dados absolutamente concretos, inquestionáveis a respeito de alguma alteração no quadro de saúde de pessoas que consumiram este ou aquele alimento transgênico, isto, concretamente, não existe. Então, estas pessoas que defendem a não utilização o fazem mais por uma medida preventiva do que por dados fundados e comprovados. Na verdade, ninguém sabe o que pode
acontecer. Eu, particularmente, não tenho um temor maior, nem vejo com maior receio esta questão, mas já vi artigos de pessoas que citam algumas possíveis evidências de que poderia haver algum tipo de prejuízo. Mas isto é ainda um assunto muito discutível.
Professor Elias: concluindo, na sua opinião pessoal, como pesquisador, professor e educador, o senhor é favorável à clonagem de seres humanos ou de órgãos humanos para serem utilizados em transplantes? Qual é a sua posição ética em relação ao assunto?
Professor Ferraz: esta é uma questão muito difícil. Primeiramente, gostaria de esclarecer que não sou um pesquisador. Sou apenas um educador que procura acompanhar as novidades de minha área, que é a biologia.
A questão da clonagem é que ela admite diversas nuanças. O problema é a fronteira entre o admissível e o inadmissível. Penso que ninguém - com um mínimo de bom senso - seria a favor de se fazer com um ser humano a mesma coisa que se faz rotineiramente com porcos ou ratos, que, a partir de uma célula qualquer se clona um corpo inteiro, gerando um ser por completo a partir de uma célula extraída de um certo organismo. Isto, pelo menos até onde eu saiba, nenhuma pessoa de bom senso seria a favor.
Agora, outras situações, na mesma linha, mas que tenham um alcance menor - como este que você citou: a produção de órgãos humanos - Por que não? Se eu tirasse a célula de uma determinada pessoa e partir dela pudesse produzir um órgão para a posterior utilização do mesmo pela própria pessoa, ou mesmo por terceiros... Por que não podemos tirar proveito destas técnicas se elas podem ser utilizadas para ajudar a resolver diversos problemas de saúde, ajudando milhões de pessoas, sem prejuízo a pessoa alguma?
Esta questão da produção de órgãos para transplante, por exemplo, eu, particularmente, não vejo problema algum, posto que nós não estaríamos infringindo nenhum tipo de critério ético, na medida em que, na utilização de tais processos, não estaríamos prejudicando a ninguém, nem interferindo negativamente na essência do ser humano.
Quando se precisa fazer um transplante, você, muitas vezes, se depara com um pai cedendo um dos rins para o filho. Tira-se um órgão - que é um conjunto de células de uma pessoa -para inserí-lo no corpo de outra, a fim de que este corpo, no momento fragilizado, possa posteriormente funcionar melhor. Portanto, nesses casos, na necessidade de se produzir
órgãos para transplante, eu estaria fazendo, fundamentalmente, a mesma coisa: extraindo células do corpo de uma pessoa para, a partir deste conjunto de células, produzir um órgão que pudesse ser inserido no corpo de outro, e, diferentemente do primeiro caso, sem prejuízo para nenhuma das partes.
Se tudo isto fosse feito dentro desta linha, não haveria problemas. Entretanto, existem temores de que este tipo de procedimento possa acontecer, não a partir do corpo de uma pessoa adulta que, por sua vez, perde conscientemente parte de seu corpo em prol de outra pessoa. Mas o verdadeiro temor é que se produzam embriões humanos, com corpos humanos "corretos", que pudessem ser, posteriormente, doadores de órgão. Estes corpos, geneticamente criados, seriam totalmente manipulados e seriam privados de existência própria, servindo apenas para o "abate", um doador - no caso de uma pessoa necessitar de um transplante. Tais "criações" seriam, portanto, meros objetos doadores de órgão e células. Isto sim seria extremamente desumano e antiético.
Professor Elias: Muito obrigado pela oportunidade única de entrevistá-lo professor Ferraz. O senhor teria mais alguma coisa a acrescentar?
Professor Ferraz: não. Só gostaria de agradecer a honra de ter sido escolhido para dar este breve depoimento, ressaltando que esta minha modesta contribuição provavelmente mereça ser enriquecida por informações obtidas com pessoas mais especializadas.
Professor Elias: eu é que agradeço pelo senhor ter me concedido a oportunidade de realização desta entrevista interessante e oportuna.
CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não tendo muito mais a acrescentar, debruço-me em ombros de gigantes para a finalização deste trabalho:
"Eu não sei o que posso parecer para o mundo, mas para mim mesmo eu pareço ter sido somente um garoto brincando na praia e me divertindo de vez em quando, ao encontrar um cristal mais aveludado, ou uma concha mais linda do que o usual; enquanto o grande oceano da verdade deposita todo o inexplorado diante de mim".
ISAAC NEWTON
Uma coisa aprendi ao longo da vida: que toda nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil - e, ainda assim, é a coisa mais preciosa que temos".
ALBERT EINSTEIN
Meus mais sinceros votos são para que todo este cabedal de conhecimentos descobertos pelo homem moderno seja usado em prol da humanidade e da maneira mais ética possível.
Entrevistador: professor Elias Celso Galvêas. Entrevista feita para a PUC-RJ.
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