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UMA NOVA TEORIA DA APRENDIZAGEM - J. BRUNER
Texto elaborado pelo professor Elias Celso Galvêas.


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TRABALHO SOBRE JEROME S. BRUNER

Professor Elias Celso Galvêas

Dentro das principais vertentes do aprendizado e da psicologia do desenvolvimento, Bruner, juntamente com Ausubel, é o principal representante da "Teoria Cognitiva". Observe o quadro abaixo:

TEORIA ÊNFASE PRINCIPAIS AUTORES

a) Comportamental: ênfase no comportamento "estímulo-resposta", em detrimento ao pensamento (aspectos cognitivos) e aos sentimentos. Também conhecida como Behaviorismo, tem como expoente Skinner.

b) Afetivas: ênfase nos sentimentos e na psicologia motivacional, possuindo bases na psicologia humanista. Tem como Principais expoentes Carl Rogers e Abraham Maslow.

c) Cognitivas: ênfase no pensamento, ou melhor, nos processos de aquisição do conhecimento. Expoentes: Piaget, Jerome Bruner e Ausubel

d) Sistemas Sociais: ao processo de interação grupal, bem como de interrelação do indivíduo no meio grupal. Expoentes: John Dewey, Lewin Schmuck and Schmuck


O principal objeto de estudo de Jerome Bruner é a aquisição dos processo cognitivos pelo ser humano, ou seja, como se dá a gradual aquisição de conhecimentos que servirão como instrumento para o homem decifrar o meio que o cerca (transformando-o e dominando-o), bem como para a solução de problemas, conceituação de realidade observada (através de sistemas de representação adequados), raciocínio e reconhecimento perceptíveis.

Bruner, em seus estudos, confere uma nítida ênfase à linguagem como o principal meio de representação simbólica da realidade, tanto concreta quanto abstrata. O homem constrói o conceito que adquire do mundo através dos "símbolos linguísticos" (palavras) aos quais, gradualmente, vai atribuindo significados ao nível subjetivo e consensual.

Também irá estabelecer uma relação intrínseca entre o modo de representação visual (ou icônico), com o conceito da "representação linguística" vista acima. Ele observa que a "representação visual'; um desenho, por exemplo, é uma das primeiras formas de comunicação utilizada pela criança, juntamente com as "representações ativas".

As "representações ativas" feitas pelas crianças em seus primeiros estágios de desenvolvimento, por sua vez, corresponde a tentativa de representação de determinadas realidades, através da supressão do estágio de representação linguística. Como por exemplo, podemos citar a criança que quando ouve a palavra "buraco", lhe vem
imediatamente na cabeça o ato de cavar; quando ouve a palavra água, igualmente, lhe passa pela mente a ação de cavar propriamente dita, e, daí por diante, a criança vai elaborando inúmeras "representações ativas" que objetivam substituir a linguagem ainda mal formada e em processo de desenvolvimento.

Segundo Bruner, na tentativa de adquirir conhecimentos básicos para "decifrar" o meio em que está inserido, o homem acaba por discernir estratégias sistemáticas de comportamento, reconhecendo, continuamente, regularidades dentro da complexidade dos fenômenos do mundo que o cerca. A partir daí, ele começa a formar conceitos estratégicos que, com o passar do tempo, devidamente assimilados e sedimentalizados, permitir-lhe-ão influir sobre o meio, com o poder de moldá-lo e transformá-lo.

Bruner relaciona, basicamente, o comportamento do indivíduo com a aquisição de conhecimentos pelo mesmo. É a educação, encarada como um processo sistemático ou não, que servirá de instrumento para que o homem possa dominar o meio em que vive.

Também foi objeto das pesquisas de Bruner a origem da atividade cognitiva humana, tendo obtido como resultado uma abordagem, de certa forma, contingencial para a época - pois na formulação de seus conceitos básicos ele soube como usar elementos das teorias
anteriores -, além de mais completa e apropriada na tentativa de explicar as teorias sobre o desenvolvimento intelectual humano.

Jerome S.Bruner dedicou 2 anos de seus estudos às crianças com bloqueio e dificuldades de aprendizagem. Em tais estudos, ele soube, com muita sagacidade, diferenciar os casos patológicos dos casos psicológicos de bloqueio cognitivo, o que gerou, na época, muita polêmica. Bruner manteve crianças em tratamento, observando-as e dando-lhes atenção
especial, a fim de auxiliá-los nas dificuldades escolares.

Observou, igualmente, que a eficiência na aquisição dos processos cognitivos (e seu posterior desenvolvimento) não se dava, de forma alguma, de maneira igual de pessoa para pessoa. Portanto, pode observar, na prática, que cada indivíduo assimila informação em tempos e ritmos diferentes, de acordo com seus respectivos potenciais e capacidades.

"Há uma diferença entre o comportamento que enfrenta as exigências de um problema e aquele que procura defender-se de qualquer participação (...). A última forma não é uma visão distorcida da primeira; é uma posição diversa como objetivos e necessidades diferentes". (Jerome S.Bruner)

Bruner, apesar de ser contra o Behaviorismo interpretado ao pé-da-letra, de maneira crua e seca, mostra visível preocupação em relação ao comportamento do ser humano frente ao processo de aprendizagem. Para Bruner, tanto o comportamento, em termos de atitudes, quanto o meio-ambiente (interação do homem com o mesmo), representou, em todo decorrer de seu trabalho, variáveis de suma importância para a elaboração dos conceitos sobre os processos de aquisição do conhecimento.

Bruner acaba por concluir que certas "distorções" encontradas no decorrer da aquisição de processos cognitivos são devidas ao fato de que as crianças que ele procurava assistir, que ele observava diretamente, trabalhavam em um conjunto de atividades e de problemas diferentes daqueles propostos pela escola.

"(...) quando as crianças dão resposta erradas, o mais das vezes não há erros, mas sim respostas a outras questões - sendo então o caso de achar ao que estão, de fato, respondendo." (Jerome S.Bruner)

Assim verificou o autor em sua obra "uma Nova teoria da Aprendizagem". A verdadeira construção de conceitos pela criança é um processo que leva algum tempo para amadurecer em sua plenitude. Primeiramente, o que de fato ocorre, é a captação, pela criança, de níveis de representação do mundo menos complexo, a conseqüente assimilação e construção de conceitos elementares pela mesma, até que um nível de representação superior da realidade possa ser atingido e dominado pela criança.

Recapitulando, Bruner, em sua obra, diferencia 3 níveis de representação da realidade distintos. São eles: a) a "representação ativa"; b) a "representação icônica" (ou visual); e fnalmente, a mais complexa representada pela "representação simbólica, onde a criança começa a dominar os símbolos linguísticos e começa a entrar em contato com a
comunicação oral e escrita, abandonando os tipos de representações ativas e visuais por ela, outrora, usadas.

De fato, para a organização didática de suas teorias, Bruner irá utilizar como referência a demarcação classificatória dos diferentes estágios pelos quais as crianças passam - a fim de assimilarem e construirem conceitos para o entendimento do mundo, ou seja, o que ele considerará diferentes níveis usados pelas crianças no entendimento e na representação da realidade que as cerca. Todavia, nesse sentido, Bruner irá se diferir bastante de Jean Piaget que, para a elucidação de suas teorias sobre o desenvolvimento cognitivo, utilizou-se da divisão entre faixas etárias infantis, onde diferentes tipos de desenvolvimento podiam ser observados, nos diferentes estágios.

Bruner, assim como Piaget, irá dar muita ênfase ao processo gradativo de aquisição do pensamento lógico e como ele, já sedimentalizado, se processa na mente infantil, primeiramente e na mente adulta. Portanto, segundo o próprio autor:

"Após o estudo dos "conceitos-estratégicos" pelos quais descobrimos equivalentes nas coisas que nos rodeiam, fiquei altamente impressionado com a qualidade lógica, "racional", do homem adulto".

Assim, só através da construção primeira de "conceitos-estratégicos", muito importantes na formulação de conceitos mais complexos, é possível, ao homem adulto, entrar na esfera do pensamento lógico, onde inúmeras associações lógicas podem ser, ao mesmo tempo, processadas no ato de pensar. E podemos acrescentar que o próprio reconhecimento de regularidades no comportamento humano (rotinas de pensamento e de atitudes), que permitem ao homem atuar na solução de problemas (diante da complexidade de seu meio), este fator, em si, pode ser considerado um "conceito-estratégico" adquirido pelo indivíduo.

Novamente, segundo o autor:

"(...)Parece bastante fácil escolher determinada teoria relativa às modificações no comportamento como instrumento para descrever o desenvolvimento intelectual, uma vez que há nele tantas facetas que qualquer teoria pode explicar satisfatoriamente determinado aspecto."

Bruner estudou, com bastante profundidade, a natureza do desenvolvimento intelectual humano, tendo estabelecido algumas referências sobre a natureza do desenvolvimento intelectual que encontram abaixo resumidas:

1) "O desenvolvimento intelectual caracteriza-se por independência crescente da resposta, em relação à natureza imediata do estímulo. É possível prever o comportamento da criança conhecendo os estímulos que nelas agem, durante e imediatamente antes da resposta."

2) "O desenvolvimento intelectual baseia-se em absorver eventos em um sistema de armazenamento que corresponde ao meio-ambiente. É tal sistema que permite à criança aptidão progressiva de ir além da informação encontrada em uma única ocasião; ela faz previsões e extrapolações, partindo do modelo armazenado do universo".

3) "O desenvolvimento intelectual entende uma capacidade crescente de afirmar, a si mesmo, e aos outros, por palavras ou símbolos, o que alguém fez ou o que alguém fará. Essa prestação de contas ou consciência própria possibilita a transição de um comportamento chamado lógico".

Comentário do aluno: o processo acima descrito (item 3) é o que leva o indivíduo ao eventual reconhecimento da necessidade da estruturação de um pensamento lógico e ordenado, conferindo à pessoa um espírito de análise crítica e filosófica, científico, que se contrapõe às adaptações do pensamento empírico.

4) "O desenvolvimento intelectual baseia-se numa interação sistemática e contingente, entre um professor e um aluno, no qual o professor, amplamente equipado com técnicas anteriormente inventadas, ensina à criança".

Comentário: no item 4, vemos como o professor é um importante instrumento na aquisição de conhecimentos do aluno, sendo um orientador e facilitador do processo da aprendizagem, praticamente catalisando todo o processo. O professor, para Bruner, é um mero (porém importante) repassador de conhecimentos, uma importante peça para a manutenção e perpetuação da cultura e conhecimento.

5) "O ensino é altamente facilitado por meio da linguagem que acaba sendo, não apenas meio de comunicação, mas o instrumento que o estudante pode usar para ordenar o meio-ambiente. A natureza da língua e suas funções devem fazer parte de qualquer teoria do desenvolvimento cognitivo".

Comentário: nesse item 5, Bruner destaca nitidamente a importância crucial da aquisição e do domínio da representação simbólica do mundo, que é a linguagem , a comunicação, seja ela oral ou escrita. Logo, a linguagem é o principal instrumento de captação da realidade do meio pelo aluno.

6) "O desenvolvimento intelectual é caracterizado por crescente capacidade para lidar com alternativas e, simultaneamente, atender a várias seqüências, ao mesmo tempo, e distribuir tempo e atenção, de maneira apropriada, a todas essas demandas múltiplas. Há, naturalmente, grande distância entre a mente singela de uma criancinha e a aptidão de um
menino de dez anos para enfrentar um mundo extremamente complexo".

Todas essas observações causaram polêmicas e inúmeras discussões na época, e acabaram por ter boa aceitação e força, até mesmo, de postulados, posteriormente.

Para Bruner, o mundo, em seu estado natural precisa ser totalmente decodificado pelo homem. Essa "decodificação" será viável através da aquisição, pelo indivíduo, dos mecanismos de "representações visuais", lingüísticos, ativos e simbólicos, que serão os instrumentos básicos com que o homem se habilitará a construir conceitos para entender realidades maiores, mais abrangentes e complexas.

Assim, o homem só é capaz de entender o meio em que habita, de desvendá-lo gradualmente, através da construção dos "conceitosestratégicos", que serão a semente do pensamento e do raciocínio lógico ordenado, da fase adulta. Tais "conceitos-estratégicos" só podem ser estruturados e formulados, apropriadamente, através de um sistema pré-estabelecido de representações simbólicas que objetivam tornar o mundo inteligível ao nível da compreensão humana. Tais sistemas de representações simbólicas que o homem elabora (até mesmo ao nível inconsciente), permitirão ao mesmo transladar a sua experiência a um modelo conceitual do mundo por ele construido.

O ser humano precisa, portanto, dominar os sistemas de representação que, teoricamente, simbolizam o mundo, e deles fazer uso constante a fim de decifrar realidades contingentes e mais complexas. Segundo Bruner, isso é o que há de mais interessante no estudo do desenvolvimento cognitivo como um todo.

Bruner discute como a linguagem influi diretamente nos processos cognitivos.

"A nova ênfase nos aspectos universais da linguagem sugere um bom ponto de partida: quais as conseqüências que decorrem das propriedades mais gerais da linguagem? Tal preocupação me leva a pôr a linguagem no centro do palco ao considerar a natureza do desenvolvimento intelectual".

Com esse simples pensamento, Bruner sintetiza a importância crucial da linguagem como instrumento de apreensão da realidade do meio.

E mais além: "O certo é que quanto mais conhecemos sobre as propriedades e poderes da linguagem, mais devemos saber sobre como usá-la para ajudar o raciocínio.

Para sintetizar o pensamento bruneriano, colhi a seguinte observação:
"A perseverante qualidade racional de comportamento, a que antes me referi, passa a figurar quando há a interiorização de técnicas simbólicas - a linguagem, na sua forma natural, e depois as linguagens artificiais de números e lógica. Há, porém, diversas maneiras de se processar informação, e a forma simbólica é apenas uma delas. Permitam-me desconfiar de que muito de nossa não-racionalidade intrusiva, das formas disruptivas ou poderosas, como as metáforas da poesia, provém de operações ativas (ou icônicas) na experiência."

Segundo Bruner: "Permitam-se tomar a veia autobiográfica: tive sempre dificuldades com as teorias do condicionamento estímulo-reação, quer baseadas na idéia de contiguidade, quer na de reforço, como forjadora dos elos entre estímulo e reação".(Crítica ao Behaviorismo).

"Explicar a crescente liberdade do comportamento do controle do estímulo imediato interpondo pequenos "e" (estímulos) e "r" (reações) invisíveis entre o estímulo e a reação final parece-me fútil"(Crítica ao Behaviorismo).

De acordo com Bruner, o estudo do comportamento humano não deveria analisar crua e secamente apenas os estímulos e as respostas dos indivíduos ao meio, mas sim realizar as observações baseando-se na mediação da linguagem como veículo entre o estímulo e a resposta.

"A teoria Gestalt é, por excelência, o sistema para estudar a forma icônica, solidamente firmada na análise da fenomenologia cândida da experiência e de como percepção e memória se ligam pela semelhança fenomênica".

"Os fatores afetivos e motivacionais influem nas imagens e na organização perceptiva, especialmente quando se usam estímulos pobres e se põe ambígua a caracterização linguística".

"O certo é que quanto mais conhecemos sobre as propriedades e poderes da linguagem, mais devemos saber sobre como usá-la para ajudar o raciocínio".

Bruner discute como a linguagem influi nos processos cognitivos.

"A capacidade progressiva para cuidar os aspectos múltiplos do meio ambiente, e para seguir seqüências diversas ao mesmo tempo, depende da natureza da representação com que a criança ordena o seu mundo".

Os primeiros conhecimentos básicos a criança vai adquirindo através dos sentidos: visão, audição, etc.

Seguem-se os processos de comunicação ou transmissão de conhecimentos, em que a "linguagem" desempenha papel fundamental.

Trabalho realizado pelo Professor Elias Celso Galvêas, em 1995, para a Universidade Santa Úrsula.

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